Mercado de trabalho ainda é desigual para homens e mulheres

Apesar de a mulher brasileira superar o homem em anos de estudo, o mercado de trabalho permanece desigual na comparação entre os gêneros. A diferença salarial é um dos pontos mais gritantes. Recente pesquisa do Grupo Catho mostra que os homens ganham, em média, 20% a mais que as mulheres, mesmo quando elas ocupam os mesmos cargos. E a distância aumenta quando se trata de cargos de coordenador e gerente, cuja diferença pode chegar a 50%.
 
Esses dados foram mostrados e discutidos em recente mesa redonda realizada pela Comissão de Cultura e Extensão da FEAUSP, sob o título de “A Questão do Gênero na Evolução na Carreira e no Mercado de Trabalho”. Ex-alunas da Faculdade relataram sua trajetória profissional e os desafios enfrentados no mercado de trabalho pelo fato de serem mulheres. 

A professora Adriana Marotti, do departamento de Administração (EAD), que mediou o debate, apresentou um levantamento do IBGE que revela a desigualdade também no número de horas trabalhadas. Nesse caso, a estatística incluiu o tempo gasto com as tarefas domésticas. Entre 2005 e 2015, houve um aumento da carga horária das mulheres, somando-se as atividades dentro e fora de casa, de 6,9 horas para 7,5 horas a mais do que os homens, por semana. “Temos a famosa jornada dupla. Alguns homens ainda são incapazes de fazer a sua própria comida e lavar sua própria louça”, brincou a docente. 

Experiências pessoais

Professora da FEI, a ex-aluna de Administração da FEA, Angela Christina Lucas, estuda a desigualdade entre homens e mulheres no mercado de trabalho há 8 anos, quando escolheu o tema para sua tese de doutorado. A ideia surgiu no próprio ambiente de trabalho ao observar que parte das colegas enfrentava um dilema após a licença maternidade, que era o de continuar trabalhando ou pedir demissão para cuidar do filho. “Eu me questionava: se meus amigos que têm filhos não têm esse dilema, porque minhas amigas têm?”. 

Angela Lucas ressaltou que a imagem que a sociedade tem da mulher ligada ao papel de mãe respinga no ambiente profissional. E citou um exemplo prático: “Você está lá fazendo uma reunião dentro da empresa com vários pares. Sempre vão pedir para a mulher fazer a ata da reunião. Isso acontece porque ela tem esse papel da cuidadora e é muito difícil desconstruir essa imagem”.  

Orientador de Angela Lucas, o professor André Fischer (EAD) disse que a discriminação na carreira acontece por fatores objetivos e subjetivos. Do lado objetivo, a grande questão está ligada à maternidade, que disputaria o interesse da mulher no próprio trabalho.  “Sem falar que a empresa tem que substituir a pessoa durante a licença maternidade, e que os postos de comando exigem atenção e um envolvimento às vezes 24 horas por dia”, analisou Fischer. Já do lado subjetivo, o docente apontou como fator a cultura brasileira que ainda vê na mulher um perfil que não combina com a competitividade, já que a enxerga como “um gênero preparado mais para o cuidado, para a relação afetiva”. 

A desigualdade entre os gêneros dentro das empresas é mais gritante no momento que você junta duas variáveis: ser mulher e ser negra. Quem estuda a fundo a problemática é a professora da Universidade Estadual de Feira de Santana (BA), Sandra Maria Silva, que realizou seu doutorado na FEA, na área de Contabilidade. No caso da diferença salarial, o dado é estarrecedor. Se em 2007 a mulher ganhava 62% em média do salário do homem, esse índice caia para 34% caso ela fosse negra. “Quando a gente fala em mulheres e agrega o recorte racial, as diferenças vão se ampliar de uma maneira significativa”, destacou Sandra. 

Cargos de liderança

Levantamento realizado por uma auditoria internacional indica que o Brasil é um dos piores países para participação feminina em cargos de liderança. Citando os dados, a professora Adriana Marotti disse que somente 15% em média dos cargos de gerência e de executivos são ocupados por mulheres. No primeiro lugar do ranking está a Rússia, onde 40% desses cargos estão nas mãos de mulheres. “Esse dado mostra que a pirâmide, se já é estreita para atingir cargos de alta administração, para as mulheres é mais estreita ainda”, constatou Marotti. 

Segundo o professor André Fischer, o maior agravante é quando você percebe que o número de mulheres graduadas no ensino superior é maior do que os homens na mesma faixa etária. “Como o total de anos no ensino formal é um indicador objetivo de competência, é estranho ver uma participação tão pequena das mulheres em cargos que exigem maior qualificação”.
 
No caso das mulheres negras, houve um tênue crescimento da participação em cargos executivos, de acordo com o IBGE. De 2003 a 2010, a variação passou de 2,6% para 5,3%. Para a professora Sandra Maria Silva, a discriminação contra a mulher negra é uma sequela deixada pelo período escravagista, já que elas enfrentaram um processo de desenvolvimento e de escolarização tardios.  

A ex-aluna de Economia da FEA, Carolina dos Santos Batista, ocupa o cargo de gerente de Negócios Digitais PJ de uma grande instituição financeira. Apesar de estar numa área predominantemente masculina, ela disse que já enxerga uma evolução da mulher no ambiente de trabalho. “Acho que a atual geração já chega com outros ensinamentos obtidos na escola e uma nova percepção geral. Na empresa onde trabalho a palavra da mulher é muito ouvida. Tenho uma equipe multidisciplinar direta de 15 pessoas e uma indireta de 40 pessoas, e eu vejo esse respeito entre eles”.  

Gente da FEA - junho de 2017
Autora: Cacilda Luna
 

Data do Conteúdo: 
quarta-feira, 7 Junho, 2017

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