Brasil precisa investir em tecnologia e focar no mercado interno

Durante seminário organizado pela FEA-USP Ilan Goldjfan, economista chefe do banco Itaú, e Yoshiaki Nakano, da FGV, deram um panorama da economia brasileira em 2010

Cleyton Vilarino

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"O ano de 2010 está ganho, salvo grandes desastres", comentou o Prof. Yoshiaki Nakano, ex-secretário da Fazenda e atual diretor da Escola de Economia da Fundação Getúlio Vargas, durante a primeira palestra de uma série de debates sobre a conjuntura econômica do Brasil. Organizado pelo professor Carlos Eduardo Soares Gonçalves, do departamento de Economia da FEA-USP, o debate contou também com a participação do Prof. Ilan Goldjfan, professor do Departamento de Economia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e abordou os rumos da economia do país e as perspectivas da macroeconomia no longo e curto prazos. Durante o evento os palestrantes foram uníssonos ao afirmar a necessidade do país investir em tecnologia e na manutenção do mercado interno.

Durante sua fala, o professor Yoshiaki alertou para uma tendência brasileira de "especialização regressiva" e mostrou números que comprovam o baixo investimento no setor de tecnologia. No comparativo dos investimentos realizados pelo governo entre os anos 1997 e 2007, Tecnologia teve um fomento de 1,9% enquanto o setor de commodities agrícolas teve acréscimo de 16,4%. Quando comparado o período de 1996 a 2002 com o de 2003 a 2007 a diferença chega ao decréscimo de -5,4% em tecnologia.

Para o Professor, ou mantemos o ciclo de recuperação da crise numa dinâmica dependente do cenário externo ou adotamos um modelo mais inovador. "Existem duas formas de crescimento. A primeira é a inovação tecnológica e a segunda é o Catch-Up", conta. Catch-Up é um termo asiático que trata da vontade dos países em desenvolvimento de atingir o patamar econômico das grandes potências. Este modelo é baseado na atração das fronteiras tecnológicas para dentro do país de modo a realocar empregos, recursos e produtividade. O objetivo é iniciar um processo de construção de um sistema produtivo nacional integrado e competitivo acelerando o investimento em bens de capital. "A ideia de que os países conseguem crescer como cresceram até hoje [com modelo de exportação de matérias primas] mudou", conta o Prof. Ilan Goldjfan.

Desafios

O grande desafio é montar uma "máquina de crescimento" com mecanismos internos geradores de dinâmicas de crescimento. O Brasil, que nos últimos anos manteve-se na mesma média de crescimento dos anos 80, a década perdida, começa a dar sinais deste tipo de condições. Desde 2004, o número de jovens na pirâmide etária brasileira tem diminuído gradativamente e, de  acordo com estudos mostrados durante a apresentação, a população total deverá reduzir a partir de 2040. Isto causa implicações no mercado de trabalho como a valorização da mão de obra de base e o aumento do trabalho formal. São transformações que podem ser percebidas atualmente com a expansão do mercado consumidor brasileiro e do consumo de massa. A fim de aproveitar estas oportunidades, o empresariado tem voltado cada vez mais os olhos para o mercado interno e aumentado suas expectativas em relação ao país.

Tal cenário, associado à situação
pós-crise imobiliária
dos países desenvolvidos, tem elevado os índices de confiança no Brasil no cenário nacional e internacional. Tocando neste ponto, o prof. Yoshiaki acredita na necessidade de se eliminar "entulhos da época da inflação", reduzindo a taxa de juros e reduzindo a volatibilidade da taxa de câmbio para fomentar a confiança dos investidores. "O que realmente marca um surto de crescimento é a constituição de uma massa crítica de empresários otimistas deslocando expectativas para o longo prazo", afirma o Professor.

Se esta massa crítica se consolidar no país, os próximos anos serão de grande crescimento. O Prof. Ilan Goldjfan lembra que em 2009 o Brasil se comprometeu com investimentos em infraestrutura devido a Copa do Mundo e as Olimpíadas de 2016. Com a previsão de um PIB próximo dos 6%, o Professor alerta: "É preciso um aumento de gasto de 5% do PIB em infraestrutura para a economia crescer por volta de 4,5% a 5%". Porém, temos um cenário interno complicado, uma vez que o setor privado está cada vez mais voltado para o consumo e o Estado resiste em poupar gastos para realocá-los em infraestrutura.

Cenário internacional

O cenário internacional ainda reflete a crise imobiliária de 2008. De acordo com o Professor Ilan Goldjfan, tratou-se de "uma crise que vai mudar o mundo. Só não sabemos como". Ele elencou algumas mudanças já percebidas e que influenciarão a economia brasileira nos próximos anos.

Uma dessas mudanças foi a maior regulação do sistema financeiro, que passa a ter menos capacidade de assumir riscos. Outra foi o endividamento de países que tentaram salvar seu sitema bancário e hoje estão com rombos de dívida externa. O debate agora é se estas nações, mais particularmente os PIGS (Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha), conseguirão se recuperar. "A alternativa é o Estado passar a digerir a crise ao invés de gerar crescimento" explica o Professor. Em outras palavras, estes países passarão um tempo com taxas de crescimento medianas como as enfrentadas pelo Brasil na década de 80, com pouco investimento e comprometidos com a quitação de suas dívidas.

Por outro lado, os países em desenvolvimento apresentaram maior autonomia durante a crise e
ainda
hoje apresentam grande capacidade de crescimento. A questão é: "Os emergentes conseguem crescer sem os desenvolvidos?". Nesse ponto o professor Ilan aposta no investimento no mercado interno. As grandes economias estão endividadas e com baixo consumo interno quando comparadas com países como os BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China), que ainda mantém um vasto mercado consumidor, classe média ascendente e um empresariado mais confiante no cenário interno. "Em um curto prazo, viveremos o mundo dos emergentes", aposta o Professor.

Data do Conteúdo: 
segunda-feira, 15 Março, 2010

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