Tributo a Armando Catelli: o "gênio" da controladoria

Por Cacilda Luna

No final dos anos 70, ele idealizou um modelo inovador de mensuração de custos baseado em gestão por resultados econômicos, o Sistema de Gestão Econômica, conhecido por GECON, um modelo gerencial cuja visão ia além do lucro. Classificado por seus colegas do departamento de Contabilidade e Atuária (EAC) da FEAUSP como um “gênio”, o professor Armando Catelli faleceu em novembro passado, aos 83 anos, deixando órfãs pelo menos três gerações de mestres e doutores. Gerações essas que contribuíram e contribuem até hoje para o desenvolvimento das ciências contábeis no Brasil. 

Armando Catelli, que estava aposentado, foi professor titular do EAC, onde atuou por mais de 40 anos. No dia 19 de fevereiro, a FEA prestou uma homenagem a este mestre que tanto se dedicou à capacitação de centenas de contabilistas, controllers e executivos.  O tributo, uma iniciativa do chefe do departamento de Contabilidade e Atuária, Ariovaldo dos Santos, foi realizado dentro da programação da aula inaugural do Programa de Pós-Graduação em Controladoria e Contabilidade (PPGCC), coordenado pelo professor Lucas Ayres, e contou com a presença de familiares. Dona Miriam, viúva do homenageado, recebeu flores das mãos da professora Cecília Akemi Kobata Chinen.

O professor Reinaldo Guerreiro, que fez uma apresentação sobre as “ideias geniais por trás do Sistema de Gestão Econômica”, se arriscou a dizer que “todos os livros de controladoria lançados no Brasil beberam na fonte do professor Armando Catelli”. Guerreiro, que escreveu diversos trabalhos científicos junto com o mestre, citou que um de seus primeiros papers internacionais versou sobre um achado genial de Catelli, inédito na literatura mundial: “como calcular o grau de acabamento”.  

Emoção

O evento foi marcado por muita emoção. Quem conviveu mais proximamente com Armando Catelli relatou histórias de seu cotidiano como professor, pesquisador, orientador e ser humano. Com a voz embargada, o professor Geraldo Barbieri (foto) contou como conheceu Catelli antes mesmo de ingressar na USP e o quanto foi ajudado por ele em seu início de carreira. Sua bondade, especialmente na hora de ajudar os alunos a conseguir estágio, foi uma das qualidades citadas durante a homenagem.

Segundo o professor Eliseu Martins, os candidatos à pós-graduação formavam filas para serem orientados por ele. “A forma dele trabalhar era formar pessoas”, ressaltou Martins ao comentar que o mestre não era muito afeito a registrar suas ideias em publicações e livros. “Quando entrei na escola, ele já tinha uns 10 anos de magistério. Nós terminamos o doutoramento juntos. E para o Boucinhas (professor José da Costa Boucinhas) tirar aquela tese dele foi um Deus nos acuda”. 

O diretor da FEA, professor Adalberto Fischmann, da área de Administração, foi aluno de Catelli na disciplina de Contabilidade de Custos. “Ele foi uma das figuras que me influenciou muito na questão do controle, da contabilidade de custos, e poder fazer uma gestão das organizações muito mais balizada do que apenas a da contabilidade tradicional”.  Segundo Eliseu Martins, “Catelli conseguiu introduzir o que a contabilidade formal jamais conseguiu até hoje, que é o conceito de custo de oportunidade na sua absoluta plenitude. E não só o custo de oportunidade, a receita de oportunidade. Não existe centro de custos na empresa. E o departamento de Contabilidade, na verdade, é um departamento de produção de resultados”.

A característica atribuída a Armando Catelli de querer revolucionar a contabilidade não se limitava apenas às empresas, estendia-se também à academia.  Eliseu Martins lembrou que, junto com os professores Sérgio de Iudícibus e Alkindar de Toledo Ramos, Catelli formava o “trio de rebeldes”. Contou que, lá no início do ensino da contabilidade no Brasil, na década de 60, os três não se contentaram em seguir a “cartilha” anglo-saxônica e logo trataram de criar seus próprios métodos de ensino e pensamento contábil.   

O professor Sérgio de Iudícibus confirmou a rebeldia do trio, mas disse que quem começou a revolução contábil no departamento foi o professor Alkindar. “Eu e o mestre Alkindar a gente se encantava pela forma da teoria americana ser mais útil para o usuário do que a outra doutrina dominante na época. Mas o Catelli tinha outra perspectiva. Tinha um raciocínio mais profundo e analítico. Foi por isso que, talvez, ele tenha criado mais tarde o GECON. Ele dissecava as respostas de uma maneira incrível para os alunos, tirando realmente o que de mais importante existia na análise das pessoas. Catelli tinha uma forma de analisar a contabilidade completamente pessoal, diferente. O GECON foi a obra de um brasileiro mais brasileira que existiu dentro da contabilidade”, definiu Iudícibus.

Data do Conteúdo: 
terça-feira, 3 Abril, 2018

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