Resultados do DataFEA confirmam novo perfil dos alunos

Por Cacilda Luna

 

Uma pesquisa realizada com os ingressantes 2021 da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP confirmou a mudança no perfil dos alunos, quatro anos depois do início da implantação das cotas sociais para o ingresso na Universidade. Participaram do DataFEA 509 calouros dos 590 matriculados este ano na instuição. O resultado mostrou que 21% dos ingressantes pertencem às classes C, D e E. Já em relação à cor e raça, 24% se autodeclararam pardos ou pretos. Além do perfil socioeconômico e da raça e cor, o questionário abordou questões como preferência sexual, opção de ingresso e planos para o futuro, infraestrutura de acesso às aulas, motivação pelo curso, entre outros temas.

 

“Hoje quando você olha o perfil dos ingressantes, você percebe que ele é mais representativo da população brasileira”, analisa o presidente da Comissão de Graduação da FEA, professor Andres Rodriguez Veloso (foto), idealizador do DataFEA. “A gente percebe claramente que uma parcela bastante considerável vem de classes sociais mais baixas, que é resultado da entrada da escola pública e do uso do SiSU como processo seletivo”. Com relação à questão da cor e raça, Veloso também constata uma mudança significativa: “Vemos hoje que 1 em cada 5 alunos é preto ou pardo, o que é uma mudança muito grande em relação à época em que fui aluno. Quando entrei na FEA, em 95, só havia um negro na minha turma, e dois pardos”. Apesar de já ser possível observar a mudança no perfil dos ingressantes, a análise evolutiva depende da realização anual da pesquisa para que haja dados comparativos.

 

Andres Veloso conta que teve a ideia de desenvolver uma pesquisa com os ingressantes quando ainda era coordenador do curso de graduação em Administração. Especialista em marketing e comportamento do consumidor, o docente elaborou as primeiras versões do DataFEA — que eram mais voltadas para o curso de Administração — durante a realização de dois projetos do Programa Unificado de Bolsas (PUB), nos anos de 2018 e 2019. “Os alunos ajudaram na construção de algumas versões iniciais dos questionários, que a gente estava aplicando no contexto do curso de graduação em Administração”.

 

“Quando resolvi me candidatar a presidente da Comissão de Graduação, apresentei a ideia do DataFEA para a professora Tatiana Albanez, que era vice na chapa. Ela gostou da iniciativa e então decidimos colocar a pesquisa como um dos pontos do nosso programa. O objetivo era coletar, analisar e distribuir dados sobre os estudantes para ajudar todas as instâncias da FEA a ter uma compreensão melhor de quem são as pessoas que estão lá”. O projeto é auxiliado por quatro monitores.

 

Outro “ator” importante, segundo Andres Veloso, é o CAVC (Centro Acadêmico Visconde de Cairu). “Temos trabalhado com eles para poder incorporar as demandas da entidade. Antes, eles faziam algumas pesquisas por conta própria. Agora, trabalhando juntos, a gente diminui a quantidade de questionários circulando e temos uma iniciativa única da FEA para trazer os dados que são do interesse de todos”. Além da pesquisa com os ingressantes no início do ano letivo, o DataFEA também produz pesquisa inter-semestral e outras duas com foco na evasão dos alunos e nos egressos. Um dos projetos prevê o acompanhamento dos graduados após a saída da faculdade por pelo menos por cinco anos.

 

Perfil dos ingressantes

 

Dos 509 respondentes do questionário DataFEA, 70% são alunos do sexo masculino e 30%, do sexo feminino. A idade média dos novos alunos é 21,1 anos. Em relação à cor e raça, 67% se autodeclararam brancos, 24% do grupo PPI (18% pardos e 6% pretos), 7% amarelos e 1% não respondeu. No item classe social, 34% pertencem à classe A, 18% são da classe B1, 26% da classe B2, 14% da classe C1, 7% da classe C2 e 1% da classe D/E. A maioria dos pais possui nível superior ou acima (56% dos pais e 57% das mães). Na questão sobre o Estado em que cursou o ensino médio, 85% responderam São Paulo e 15%, outros Estados. Do total, 49% cursaram escola pública, sendo que 26% deles fizeram escola técnica e instituto federal.

 

Quando o tema é relacionado às condições de estudo como a infraestrutura de acesso às aulas, acesso a livros, ambiente de estudos e acesso à internet, os dados revelam que as condições são relativamente favoráveis ao aluno: 97% possuem smartphones, 95% têm desktop ou notebook, e 25% utilizam tablet; a qualidade do acesso à internet é considerada boa para 48% dos alunos, regular para 25% e ótima para 20%; 70,8% têm recursos para comprar livros; e 65,9% estudam em ambiente com privacidade.

 

A motivação dos alunos para escolher a FEAUSP também foi objeto da pesquisa. Do total de respondentes, 99% atribuíram a escolha à imagem da USP, 96% ao conhecimento e excelência, 92% ao fato do curso ser gratuito, 87% por ser o melhor curso da área e 81% por ser um ambiente com visão social. Ao serem questionados sobre o que buscam no curso, 93% apontaram o mercado de trabalho, 90,2% o networking, 85,3% a autonomia financeira, 79% as amizades duradouras, 67% ajudar a comunidade e 65,9% ter empresa própria ou familiar.

 

O DataFEA revelou também que 53% dos respondentes entraram no curso que selecionaram como 1ª opção. Outros 32% disseram que, apesar de não terem conseguido entrar na opção principal, iriam tentar cursar. Mas 10% demonstraram a intenção de abandonar o curso, seja por motivos de transferência, novo vestibular ou outro curso. Dos quatro cursos oferecidos pela FEA, o curso de Economia é o que registrou o maior número de alunos com ingresso em 1ª opção, ou seja, 80% dos matriculados em Economia entraram no curso que realmente desejavam. Em seguida veio Administração (51%), Atuária (38%) e Contabilidade (33%).

 

O professor Andres Veloso reconhece que o processo de ingresso na FEA é um dos fatores que contribuem para a taxa de 10% de evasão dos ingressantes. “Agora que a gente tem esses dados, vamos começar uma discussão no âmbito da Comissão de Graduação até para entender como é a dinâmica desses alunos no curso. Faremos um acompanhamento para entender o que realmente acontece. Porque hoje temos os dados só do ingresso. Quando juntarmos as informações do final do primeiro e segundo semestres, teremos uma visão melhor e poderemos discutir alguma mudança”.

 

O presidente da Comissão de Graduação considerou importante, também, o resultado referente à preferência sexual dos novos alunos. Do total de respondentes, 77% disseram ser heterossexuais, 18% do grupo LGBTQIA+ (8% homossexuais e 10% bissexuais) e 5% outros. “Achei bacana essa informação por duas coisas. Uma porque mostra que a sociedade avançou no sentido de que as pessoas têm mais tranquilidade em falar sobre o assunto e até marcar essa resposta no questionário. E a outra é o tamanho desse grupo. Quando você percebe que 1 em cada 5 alunos está nesse contexto, você passa a compreender a importância da conscientização, da aceitação, da inclusão dessas pessoas, e de termos um comportamento mais acolhedor”, concluiu o professor Andres Veloso.

 

 

 

Data do Conteúdo: 
Segunda-feira, 9 Agosto, 2021

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