Planejamento influencia diretamente na qualidade do time

Por Giovanna Costanti

Patrocínio, gestão, financiamento, estrutura, treinos, transmissão. A bola não entra no gol por um acaso. Tudo isso é essencial para garantir o sucesso de um time, seja no futebol, seja em outros esportes. Durante os dias 15 e 16 de agosto, a FEA sediou o Congresports, evento promovido pela FEA Sport Business, que debateu a gestão dos times e das marcas esportivas.

O FEASB - FEA Sport Business é uma entidade gerida por alunos desde 2014 e trabalha com quatro eixos principais: consultoria, marketing, pesquisa e eventos. Para Pedro Chaves, diretor de projetos e aluno do segundo ano de Economia, a proposta do evento, realizado pela primeira vez neste ano, é mostrar que o esporte pode e deve ser entendido como um negócio.

No primeiro dia de mesas, foi destaque a presença do professor da EEFE-USP Ary Rocco, um dos principais parceiros da entidade e hoje presidente da Associação Brasileira de Gestão do Esporte (Abragesp). Segundo ele, a área de gestão é a menos desenvolvida no esporte brasileiro. “A maioria dos times brasileiros não visa o lucro”, afirma. “Hoje o esporte é um produto, um grande negócio no mundo todo”. Rocco explica que o planejamento financeiro influencia diretamente na qualidade de um time.

A transformação do time em uma marca pode ser importante para que mais patrocinadores se aproximem, além de criar um imaginário do time na cabeça dos torcedores, rejuvenescer a marca e dar estabilidade financeira, explica Rocco. Cada vez mais, apesar da crise, cresce o número de consumidores esportivos. Neste mercado, muitas marcas têm tido interesse em associar seu nome ao mundo esportivo e a seus grandes nomes.

Segundo o professor, esse mercado se abre em um contexto em que o consumo das marcas esportivas está ligado ao ganho de certo status na sociedade, até mesmo à sensação de pertencimento. Aspectos os quais, segundo Rocco, os times devem aproveitar.

Grandes eventos esportivos

O Congresports pegou carona em dois grandes eventos esportivos que marcaram o ano: a Copa América e a Copa do Mundo de Futebol Feminino.

Para comentar a gestão dos times em um campeonato, o FEA Sport Business convidou o jornalista da ESPM, Gustavo Zupak, e o jogador Caio Alves, do Grosshoper da Suíça, que acompanharam a Copa América deste ano.

Eles comentam que, financeiramente, a Copa América foi positiva, mas apontam para erros na gestão do evento. “O marketing foi ruim e não gerou impacto no público”, frisou Zupak. Para ele, outro foco da imprensa no cobertura do evento foi o “fiasco organizacional”, que ia da compra de ingressos à condição dos gramados. “Ter outros países de fora, como Catar e Japão, também desvalorizou o produto”, comentou. Para Caio Alves, outro aspecto que deixou essa edição menos especial foi o fato de ser a quarta edição em cinco anos.

Com relação aos times, ambos concordam que o futebol tem se tornado, cada vez mais, um esporte caro de ser mantido. Isso se refletiu no preço dos ingressos. A maioria correspondia a metade de uma salário mínimo do país. “Os jogadores estão ganhando muito e alguém tem que pagar essa conta”, comentou Alves, citando vias que os times constroem para se manter financeiramente, como a proliferação das Arenas e a institucionalização do “sócio-torcedor”.

Mas sucesso econômico não significa sucesso esportivo. “No futebol, ser líder do mercado é ganhar. E os pontos corridos, método que substitui o mata-mata, privilegia a boa gestão e o planejamento”, comenta Zupak. “A melhoria da gestão envolve tempo e tempo também envolve perder. Hoje o futebol, mais do que nunca, é um processo.” Para os convidados, sem planejamento é possível ganhar um jogo, mas um campeonato só se ganha com boa gestão do time.  

As mulheres no futebol

O segundo dia de evento foi marcado pela presença das jornalistas Mariana Spinelli, da ESPM, e Olga Bagatini, do Yahoo Esportes, que debateram a Copa do Mundo Feminina e os caminhos das mulheres brasileiras no futebol.

Spinelli deu início à mesa deixando claro que excluir as mulheres do futebol é uma “jogada burra financeiramente”. Dessa forma, é urgente que os times femininos sejam levados tão a sério quanto os masculinos. “Tem que incentivar a rivalidade, por exemplo, para que um jogo Corinthians x Palmeiras seja tão esperado quanto o masculino”, complementa Bagatini.

Segundo Spinelli, a imprensa já tem entendido isso. A Band, por exemplo, tem transmitido jogos de alguns campeonatos femininos. Mas, mais que isso, as instâncias superiores da institucionalidade dos times também precisam entender isso. E aplicar no dia a dia da gestão dos times.

“Quem é que vai querer transmitir um campeonato feminino em que a partida é num campo ruim, de várzea?”, provoca Spinelli, ressaltando que, além disso, muitas equipes femininas de grandes times treinam em más condições, fora dos CTs, com uniformes dos times sub-20 masculinos. “Tem que dar estrutura para as jogadoras”, comenta Bagatini.

Segundo elas, há quem justifique dizendo que o futebol feminino é de menor qualidade. Mas erros na gestão e no planejamento levam às derrotas. Nesta Copa, por exemplo, os comentários foram de que a preparação física foi muito abaixo da esperada. Bagatini explica que é preciso auxílio técnico e financeiro para que o futebol feminino se desenvolva, desde a base até as categorias profissionais. “Não dá para comparar o masculino com o feminino. É óbvio que o desenvolvimento é diferente. A primeira copa do mundo feminina foi acontecer só em 1991”, justifica.

Para Spinelli é possível transformar o futebol feminino em um negócio, mas o clube e a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) têm que apostar e investir. “A CBF não tem departamento de futebol feminino. A seleção sub-20 está sem treinadora há mais de um ano”, comenta.

 

Data do Conteúdo: 
terça-feira, 20 Agosto, 2019

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