Para especialista, a felicidade deve ser construída no trabalho

Breno Queiroz

 

O trabalho está sendo re-institucionalizado, afastando-se do padrão de emprego formal para o chamado trabalho autônomo precário das redes e fluxos. A afirmação é do professor Sigmar Malvezzi, do Instituto de Psicologia da USP, especialista em psicologia do trabalho e das organizações.

 

Convidado para a palestra “Histórias que não renderam likes: a construção social do sucesso e do fracasso”, ocorrida na FEA no dia 29 de maio, Malvezzi disse que hoje existe uma forma de “organização sem autores”, diferente da antiga estrutura das empresas onde predominavam as relações pessoais. Para exemplificar o fenômeno, ele citou “os patrões invisíveis dos aplicativos de entregas”.

 

Sigmar Malvezzi é estudioso das potencialidades e realização humanas e de seu desenvolvimento no contexto da globalização e das empresas-redes. Segundo ele, como consequência do avanço da tecnologia, houve um aumento da fragmentação da produção econômica em correlação com o empoderamento das ações individuais. “O discurso meritocrático condicionante da nossa noção de felicidade tem enfraquecido o poder das instituições”, avaliou.

 

O professor do Instituto de Psicologia da USP disse que “como expressão da condição humana e uma peça na linha de produção, a performance do trabalho humano obedece dois senhores: a eficiência da tarefa e a qualidade de vida”. Nesse pensamento dialético, prosseguiu ele, a psicologia do trabalho e das organizações avançou para a síntese envolvendo a participação do trabalhador no processo produtivo: “julgando, escolhendo, produzindo sentido e assim, crescendo”.

 

A partir desse conceito, a felicidade é ressignificada, porque ela passa a ser cobrada dentro do trabalho, e não como um resultado fora dele. Nas palavras do professor Sigmar Malvezzi: “As pessoas querem encontrar a felicidade, pagar e sair já utilizando, como você faz com os objetos no shopping. A felicidade é uma condição interna e é construída”.  

   

A partir de seus estudos e experiência na área, Sigmar Malvezzi afirmou que há um caráter tecnicista e restrito às atividades de recrutamento, seleção, treinamento com uso excessivo de testes, na formação dos psicólogos organizacionais. O que faz com que as empresas, em sua maioria, fiquem estacionadas no ponto de partida da psicologia do trabalho, marcada pelo conceito do Personnel Managment.

 

Essa visão, no entanto, tem evoluído, segundo o docente, para o estudo de todas as condições de existência relacionadas ao trabalho. A seu ver, esse foi um importante passo para aproximar do campo de estudo o contexto atual de precarização do trabalho.

 

A palestra “Histórias que não renderam likes: A construção social do sucesso e fracasso” foi promovida conjuntamente pelo Instituto de Psicologia da USP e pela Comissão de Saúde Mental e Permanência do CAVC (Centro Acadêmico Visconde de Cairu) da FEAUSP.  

 

 

 

 

 

  



 

Data do Conteúdo: 
terça-feira, 11 Junho, 2019

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