Painel - Conhecendo os hábitos de consumo das famílias brasileiras

Professores falam sobre Pesquisa de Orçamento Familiar realizada pelo IBGE e sobre estudo de Gastos e Consumo das Famílias Brasileiras Contemporâneas,desenvolvido a partir dos dados disponibilizados pela POF

    É nítida a importância da economia na análise da qualidade de vida das famílias brasileiras, já que se trata de uma área voltada à pesquisa de várias questões envolvendo esse assunto, como geração de emprego, crescimento econômico, distribuição de renda etc. De acordo com o diretor da FEA, professor Carlos Roberto Azzoni, uma outra maneira concreta de analisar o bemestar dessas famílias é avaliar como elas estão gastando. Justamente com esse intuito, foram desenvolvidos vários estudos sobre Gastos e Consumo das Famílias Brasileiras Contemporâneas, que culminaram na publicação de um livro, em dois volumes, editado pelo IPEA, com a participação de docentes da FEA.

    Para elaboração desses estudos, os autores contaram com os dados levantados pela Pesquisa de Orçamento Familiar (POF), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em todo Brasil, em 2002. “É uma pesquisa muito detalhada, que disponibiliza informações relevantes das famílias, como quanto cada uma gastou e quanto recebeu; se é branco ou negro; se é pobre ou rico; se mora no Nordeste ou no Sul; se trabalha no setor público ou não”, explica o prof. Azzoni, que é um dos autores do livro. Através dos dados da POF, os pesquisadores puderam calcular inúmeros indicadores de dispêndio da população com bens e serviços relacionados à alimentação, vestuário, transporte, habitação, saúde, educação, lazer, cultura, entre outros. Isso possibilitou não só uma compreensão detalhada da qualidade de vida das famílias brasileiras, mas também contribuiu para o entendimento dos diferentes níveis de desenvolvimento em que se encontra a população. “Foi feito um conjunto de avaliações, tanto sobre a realidade de 2002-2003, quanto sobre a evolução da situação entre essa pesquisa e a anterior, que foi realizada em 1995-1996.

    Então, são, basicamente, dez anos de história do Brasil, analisados a partir do consumo das famílias”, completa o prof. Azzoni, que escreveu um dos capítulos do livro sobre o tema “aluguel”, com base nos dados disponibilizados pela POF, em co-autoria com a professora da Universidade Federal de Pernambuco, Tatiane Almeida de Menezes, e o pesquisador da FIPE, Guilherme Moreira. “Fizemos essa pesquisa sobre aluguéis porque é um bom indicador de quanto custa viver na cidade. Em uma cidade em que o aluguel é caro, provavelmente, todo o resto é caro também; se o aluguel é barato, todo o resto é barato”, esclarece o prof. Azzoni, que adianta o resultado obtido nesse estudo: “concluímos que Brasília é o lugar mais caro. É um mercado que tem uma rotatividade muito grande de pessoas que buscam apartamentos de bom nível. Depois vem São Paulo, Rio de Janeiro e assim por diante”.

    Para o professor de economia, Denisard Cnéio de Oliveira Alves, a POF traz uma amostra representativa das famílias brasileiras, e a comparação entre a atual pesquisa e a anterior permitiu o conhecimento da evolução dos gastos no período entre 1996 e 2002.

    “Pudemos constatar as mudanças no padrão de consumo dessas famílias e isso é muito relevante do ponto de vista da política econômica”, argumenta o prof. Denisard, que aponta como motivos dessas modificações no padrão de consumo o crescimento da renda real dos consumidores, a queda dos preços relativos e a introdução de novos produtos. O trabalho feito pelo prof. Denisard, com a utilização de dados da POF, aborda o consumo de proteína da população.

    A pesquisa, que também está no livro, foi elaborada juntamente com a professora Tatiane Menezes. “Pegamos os principais produtos que produzem proteínas e tentamos verificar como a demanda por eles reage a preços e renda. Observamos que certas famílias não consomem alguns desses produtos, devido aos seus preços relativos e aos gostos”, comenta o prof. Denisard, que continua: “também analisamos a implicação disso em termos de estimar a elasticidade do preço e da renda, bem como da demanda por esses elementos”.

    Segundo o professor de economia, Heron Carlos Esvael do Carmo, as informações disponibilizadas pela Pesquisa de Orçamento Familiar do IBGE se constituem em elementos importantes para que se possa desenvolver uma análise mais aprofundada da realidade brasileira, uma vez que permitiram uma melhoria dos estudos tanto em termos de amostra, quanto em relação à precisão dos resultados obtidos.

    “De modo geral, a POF demonstrou que houve uma mudança no consumo, principalmente um aumento na participação nos gastos com serviços públicos – por conta, primordialmente, da telefonia – e uma redução na participação de alimentos”, ressalta o prof. Heron, que também destaca a ocorrência de um ganho de bens duráveis de consumo, associado tanto à queda dos preços, quanto ao aumento do crédito. Para o prof. Heron, um aspecto relevante detectado pela POF foi a melhora no padrão nutricional do brasileiro. “Durante muito tempo, a discussão girava em torno da desnutrição no Brasil. Hoje, ficou claro que essa desnutrição ainda existe em bolsões de pobreza, mas o que estamos vivendo é a má nutrição, pois não há mais uma restrição muito grande para que as famílias adquiram alimentos”, destaca complementando “Isso está em sintonia com o aumento significativo da produtividade agrícola do país”. A partir dessas constatações, o prof. Heron conclui que o principal resultado dessa pesquisa foi evidenciar uma melhora geral na qualidade de vida das famílias brasileiras, embora também se tenha observado, pelos dados disponibilizados, que a distribuição de renda no Brasil continua sendo muito desigual.

Data do Conteúdo: 
quarta-feira, 1 Agosto, 2007

Departamento:

Sugira uma notícia