Mulheres do mercado financeiro expõem o machismo no setor

Por Breno Queiroz

 

Apesar de ser um ambiente sofisticado, com pessoas qualificadas e de alto rendimento, o mercado financeiro ainda guarda as heranças do machismo. Pelo menos foi o que relataram as convidadas do evento Mercado Por Elas 2019, organizado pela Liga de Mercado Financeiro da FEAUSP (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP).

 

Naiara Bertão, repórter do Valor Investe, divisão do jornal Valor Econômico voltada para investimentos, foi a mediadora de uma conversa com mais quatro convidadas: Marcela Tannus, diretora de desenvolvimento de negócios do Citi Private Bank; Daniela Rebollo, CFA (chartered financial analyst) no banco Morgan Stanley; Mariana Mayumi Oyakawa, head de tesouraria e relações com investidores na Votorantim S.A.; e Catherine Foster, vice-president de equities sales no JP Morgan. 

 

Todas elas começaram sem muitas certezas sobre o setor. O mural da FEA ajudou a guiar algumas delas para uma vaga no mercado financeiro. “Eu não tinha muito claro na minha cabeça o que eu queria. Não foi premeditada a área que eu caí, foi um match de personalidade”, disse Catherine para introduzir sua fala.

 

“Na primeira entrevista, eu me lembro, perguntaram: ‘só tem um homem e você na final, se eu te xingar, você vai chorar?’. Se fosse hoje, eu falo isso para todas as meninas, agradeçam pela educação e deem tchau”, contou Mariana. Ela foi a primeira no evento a contar um caso real, no qual seu gênero se mostrou contraditório com o perfil exigido nesse mercado: agressivo, forte, audacioso e, portanto, encaixado na construção social do masculino. 

 

A partir daí, todas ficaram à vontade para contar seus próprios casos. “Uma dificuldade que eu posso relatar é quando eu sento para discutir alguma coisa com meus clientes. Já aconteceu do homem, enquanto está falando, não olhar para mim. Eu estou tratando do assunto, estou buscando a solução, mas a pessoa não se dirige a mim”, disse Daniela Rebollo.

 

Naiara, como mediadora, aproveitou que algumas convidadas trabalham em firmas internacionais e pediu um paralelo entre o mercado nacional e estrangeiro com relação à desigualdade de gênero. Catherine, com experiência no JP Morgan, afirmou que os bancos de fora se preocupam muito mais, não só com as mulheres, mas com a inclusão em geral. “A gente discute todo dia, vê o RH e os gestores trabalhando em cima disso, para gerar um ambiente mais diverso”, contou.

 

Um consenso entre as convidadas foi que a parte social do trabalho tem um recorte de gênero significativo. Quando os colegas se juntam para a cerveja pós-expediente, pior do que ser a única mulher no happy-hour, elas dizem que sequer são chamadas. E é nesse momento que os homens levam vantagem, porque podem se aproximar de um cliente, aproveitar para se conectar mais com seus gestores, e abrir novas oportunidades no trabalho.

Data do Conteúdo: 
segunda-feira, 21 Outubro, 2019

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