Inovação radical como método

ANÁLISE & OPINIÃO

Prof. LEONARDO AUGUSTO VASCONCELOS GOMES  Departamento de Administração da FEAUSP

Nas últimas semanas, diversas matérias foram publicadas na grande imprensa sobre empresas, cujas inovações em modelos de negócios e em serviços seriam radicais e estariam em rota de colisão com serviços tradicionais e regulados. Inicialmente, as polêmicas ficaram em torno do Uber. Logo após, o centro da atenção passou a ser o WhatsApp, o qual foi, inclusive, acusado de ser “pirataria”. Não muito longe do palco, também era possível ler reações sobre o Netflix. Tais polêmicas não estão restritas ao Brasil. Na verdade, essas empresas estão travando uma verdadeira batalha global para impor suas inovações. O Brasil é apenas mais uma arena. Mas o que nos ensinam os acontecimentos recentes? O que, além das polêmicas, podemos aprender para construir uma sociedade mais inovadora e próspera?


Uber, WhatsApp e Netflix são apenas mais alguns casos de inovações radicais que causam ou causaram profundas transformações em determinados mercados, desafiando empresas estabelecidas e demandando novos mecanismos de regulamentação. Existiram tantas outras antes (por exemplo, Google, Apple, Microsoft, Ford, Xerox e Kodak) e outras continuaram surgindo e mudando as regras do jogo.


As controvérsias que ganharam o noticiário nas últimas semanas despertaram a curiosidade de muitos para o tema da inovação radical. Isso é bem-vindo, mas é fundamental que os nossos olhos se abram para uma questão mais profunda: temos poucas empresas brasileiras, ou sediadas no Brasil, envolvidas em desenvolver e comercializar inovações mais radicais. Se olharmos as últimas duas décadas, tivemos raros exemplos de empresas brasileiras bem-sucedidas nas áreas de internet, biotecnologia e nanotecnologia. Essas são apenas algumas oportunidades em um universo que estamos deixando ou deixamos escapar. Por isso, é mais do que urgente que passemos a olhar a inovação radical como parte de uma estratégia – não apenas empresarial – mas de pesquisa, de ensino e de política pública. É preciso fortalecer o ecossistema brasileiro para que mais pessoas estejam envolvidas e interessadas sobre inovação radical e em inovar mais radicalmente.


Inovar mais radicalmente é um grande desafio para todos. O mundo da inovação radical não é fácil. Significa avançar em territórios desconhecidos, envoltos em grandes incertezas. As polêmicas recentes alimentam a nossa curiosidade, geram debates apaixonados e enchem as páginas dos jornais. Mas não nos esqueçamos de que, em tais páginas, não há nenhuma (ou quase) empresa brasileira liderando uma batalha global para a criação de um novo mercado a partir de uma inovação radical.

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Prof. Leonardo Augusto Vasconcelos Gomes 
Departamento de Administração da FEAUSP

Gente da FEA - Setembro 2015

Data do Conteúdo: 
Segunda-feira, 21 Setembro, 2015

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