FEA Perfil - Professor Roberto Macedo

Economista do Ano 2012

O professor Roberto Macedo, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEAUSP), ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, recebeu no dia 13 de agosto, em São Paulo (SP), o prêmio "Economista do Ano", concedido pela Ordem dos Economistas do Brasil (OEB) a profissionais da área que se destacam por sua contribuição ao desenvolvimento do país e por estimular a reflexão crítica sobre a complexidade da sociedade na sua dimensão econômica.

Macedo foi indicado por economistas de todo o Brasil para fazer parte de uma lista com quatro nomes e eleito pelos associados da OEB. Além de professor, Macedo foi chefe do Departamento de Economia e diretor da FEAUSP.

"Realizado pela OEB em parceria com o Conselho Regional de Economia de São Paulo, o prêmio Economista do Ano é um tradicional reconhecimento aos profissionais da área econômica", diz o presidente da OEB e do Corecon-SP, professor Manuel Enriquez Garcia, da FEAUSP.

O currículo do professor Macedo é extenso e de peso. É mestre e doutor em Economia pela Universidade de Harvard (EUA), na qual foi assistente de professor titular. Lecionou na Universidade Mackenzie, foi professor visitante nas universidades de Kobe (Japão), Internacional da Flórida (EUA) e fez pós-doutorado na universidade de Cambridge, Inglaterra. É assessor da Faculdade de Economia da FAAP, na qual é editor da Revista de Economia & Relações Internacionais. Sua trajetória profissional inclui cargos nos governos federal e estadual, e em entidades. Nessa entrevista ao Gente da FEA, ele fala sobre a sua vida de estudante e de economista.

Gente da FEA: O sr. é de São Paulo?
Roberto Macedo: Não, sou de Minas, mas não gosto de contar, pois há quem fique com inveja.

Por que escolheu estudar Economia?
Nasci em cima de um banco. Meu pai era gerente de uma pequena agência no interior de Minas, a residência da família ficava no segundo andar do prédio. Ainda criança, comecei a frequentar o banco, e logo que me alfabetizei ajudava numa coisa ou outra, ganhando uns trocados. Aos 15, já em Belo Horizonte, passei a ser funcionário de um banco com registro em carteira. E fiz cursos profissionalizantes a partir do 5º ano do ciclo que hoje se chama Fundamental. Desse ano ao 8º, o curso era chamado de Auxiliar de Escritório. No ensino médio, fiz o curso de Técnico de Contabilidade. Creio que isso me encaminhou naturalmente para o curso de Economia, mas passei também por orientação profissional que apontou esse entre outros cursos, e acabei optando por ele.

O objetivo era ser professor?
Não, nunca havia pensado nisso seriamente. Mas, quando terminei o curso de Economia, fui convidado para ser Auxiliar de Ensino da FEA. Nessa época eu já trabalhava no Banco do Brasil, de onde cheguei ao Banco Central. Para ver se gostava de ser professor, para experimentar, eu pedi licença desse emprego, e acabei ficando definitivamente na FEA. Além disso, do 3º ano do curso em diante, fui estagiário do professor Afonso Celso Pastore, que era um ativo e brilhante pesquisador, e me interessei pela carreira de docência e pesquisa, mas não contava com um convite.

Como foi o seu tempo de USP? O que mais marcou a sua época de estudante?
Foi ótimo. Era aluno do noturno, e a FEA era na rua Dr. Vila Nova, perto de onde eu morava e de onde trabalhava. Como meu expediente no banco era de seis horas, eu tinha as manhãs livres, e isso me permitiu um grande envolvimento com a FEA. Além de estagiário, fui diretor do CAVC em três gestões, me envolvi um pouco na política estudantil, onde passei pela Ação Popular, e depois pelo chamado Grupo Independente, que diziam ser ligado ao Partidão. Participei ativamente da luta para evitar a instalação de um diretório acadêmico (DA) na FEA, conforme legislação aprovada pelo governo militar de então. Participávamos das eleições do DA, mas não colocávamos a coisa para funcionar, e o CAVC era mantido. O então diretor da FEA, prof. Dirceu Lino de Matos, não colocava obstáculos. Também ia às passeatas, comuns nessa época de agitação política. Na rua, quase fui preso duas vezes, mas felizmente isso não ocorreu.

Economia seria a sua escolha hoje?
Sem qualquer dúvida. Aliás, continuo trabalhando com ela e muito feliz com o que faço.

Quais foram as alegrias que a profissão lhe proporcionou?
Muitíssimas. A carreira na FEA me abriu muitas oportunidades, veio a pós-graduação que também era preparatório para estudar no exterior, e acabei sendo o primeiro estudante de SP a ser aceito para o Mestrado e Doutorado em Harvard, com bolsa integral do governo dos EUA. Voltando, segui a carreira, passei por três concursos dela, cheguei a chefe do Departamento de Economia e diretor da Faculdade. E, ainda, diretor de Pesquisas da FIPE. Na minha gestão, foi criada a FEA de Ribeirão Preto, e iniciados três prédios, o FEA-2 que é uma extensão do Departamento de Economia, o FEA-3, que acomoda o Departamento de Contabilidade e o FEA-5, onde está o auditório. E houve as teses, os trabalhos e livros publicados, o período em trabalhei como secretário de Política Econômica, do Ministério da Fazenda, no governo federal, que eu queria conhecer por dentro. E muitas viagens internacionais, pois era atuante no circuito acadêmico. Hoje, colaboro com o governo estadual, sigo ativo profissionalmente e não falta demanda. Acho que aposentadoria efetiva faz mal à saúde, e gosto demais do que faço.

E as decepções?
Só não gostei da mudança da FEA para a Cidade Universitária. Sou por um modelo de universidade integrado à cidade, como vi em Harvard e na Universidade de Cambridge, onde passei um ano fazendo pós-doutorado. Preferia que ela tivesse ficado na rua Maria Antonia, num ambiente mais próximo do que vi lá fora do que essa coisa aqui no Butantã, uma Brasília universitária, com as faculdades isoladas umas das outras e desintegrada da cidade e de sua comunidade.

O que o senhor recomenda para o jovem que resolver estudar Economia?
Por estranho que pareça, recomendo muito cuidado. Há dados mostrando que só 10% dos economistas trabalham mesmo como economistas ou no magistério da área. É um nicho pequeno e para chegar ao topo é preciso estudar muito, fazer mestrado, doutorado etc, e as oportunidades não são tantas como as de minha época. Eu virei professor porque no final dos anos 1960 a FEA triplicou o número de vagas e precisou de muitos mestres. Depois disso, acho que só aumentou algo entre 10% e 20%.

O que significou receber o prêmio "Economista do Ano" da OEB?
Não fiz nada de extraordinário em 2012, e acho que foi o reconhecimento pelo "conjunto da obra". E mais: desta vez, a Ordem dos Economistas do Brasil adotou outro processo eleitoral, com cada candidato apresentando um mini-CV. Quando recebi o prêmio, tive que fazer um discurso, que concluí elogiando esse processo, pois ele permitiu que tivessem chances pessoas como eu, pois algumas vezes foram eleitos economistas sustentados pelo prestígio às vezes efêmero de transitórias ocupações governamentais.

 


Data do Conteúdo: 
segunda-feira, 17 Setembro, 2012

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