Combate à corrupção e a Economia Comportamental

Por Bruno Carbinatto

Gabriel CabralO combate à corrupção é tema cada vez mais presente na discussão pública brasileira, principalmente na época de eleições. Enquanto a mídia toma as operações e julgamentos como centro das atenções, a procura de soluções urgentes, inclusive aquelas propostas pelos presidenciáveis, ainda se prendem a um modelo antiquado que desconsidera os aspectos comportamentais do fenômeno, como analisa o professor da UFRJ, Gabriel Cabral. A fala é parte do novo ciclo de palestras promovidas pelo Grupo de Estudos em Economia Comportamental da USP (GEEC), em parceria com a Cloo - Behavioral Insights Unit.

Segundo o professor, o combate à corrupção atualmente se dá por meio de apostas previsíveis: fiscalização, punição, controle, informação, conscientização e educação (compliance, por exemplo). Essas medidas, porém, pressupõem que os indivíduos são totalmente racionais, considerados por economistas como Gary Becker, ou seja, pessoas que estabelecem prós e contras antes de tomar suas decisões e tendem a procurar o máximo de benefício próprio. Esse raciocínio, segundo Gabriel, é limitado, visto que os estudos mais recentes mostram que nem mesmo quando há somente prós e nenhum contra as pessoas são 100% egoístas e “econômicas”.

É aí que entram os estudos da Economia Comportamental. O palestrante explica que a questão da auto-imagem é muito importante: sempre tendemos a nos manter íntegros para nós mesmos, e, quando há o comportamento desviante, ele sempre virá atrás de ressalvas próprias, ou seja, desculpas, para manter uma auto imagem positiva. “Meu delito não atingirá ninguém diretamente” e “a situação do país me obriga a fazer isso” são desculpas comuns que falamos para nós mesmos, de modo a não manter o sentimento de culpa.

Esse comportamento é observável em situações do dia a dia: furar fila, baixar material ilegal pela internet etc. Todos esses pequenos delitos não deixam sentimento de culpa pois se escondem atrás de desculpas internas. Mesmo os corruptos, então, não se sentem criminosos. Esse comportamento foge do padrão previsível da economia clássica e, por isso, nem sempre as políticas públicas tradicionais são efetivas. Elas consideram o combate à corrupção como um maniqueísmo bem versus mal, quando, na realidade, segue a mesma lógica das situações do dia a dia.

Outra questão é o controle. Presume-se que quanto mais controle, menos comportamentos corruptos ocorrerão, mas não é isso que se observa. Acontece que, sob uma situação de controle legal, o pensamento clássico de analisar os prós e contras vem à tona, o que pode levar à corrupção. O controle só é positivo quando 100% efetivo — mas mesmo assim exige manutenção e atualização. Assim, “nenhum controle é mais benéfico do que controle branco ou ineficaz”, conclui o professor.

Nesse sentido, punições legais não são tão efetivas quanto morais, pois é a auto-imagem que mais influencia no comportamento corrupto. Gabriel cita medidas simples, mas que são efetivas no combate à corrupção: uso de linguagem clara e direta, pra não abrir brecha para abstrações (desculpas internas); deixar claros os danos reais dos atos corruptos; usar situações sensíveis em exemplos e treinamentos (em vez de abordar o tema geral); e reiterar responsabilidade individual. Um exemplo disso são lembretes morais e assinaturas sobre códigos de ética  em documentos, por exemplo. Uma medida simples e barata, mas que reduz a corrupção pois os indivíduos, ao serem lembrados da ilicitude dos seus atos, sentem maior culpa em fazê-los, principalmente se esses lembretes vêm no início dos documentos.

Data do Conteúdo: 
segunda-feira, 22 Outubro, 2018

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