Brasil deveria investir 25% do PIB em infraestrutura

Por Cacilda Luna

Fotos: Ismael do Rosário

 

Se o Brasil quiser ter um crescimento econômico em torno de 5 a 6% ao ano terá de investir pelo menos 25% do PIB em infraestrutura, de forma constante. Atualmente, o investimento médio está em torno de 15%. A afirmação foi feita pelo economista boliviano e professor titular da cátedra José Bonifácio, da USP, Enrique García (foto abaixo), que participou no dia 21 de agosto do Workshop Mecanismos de financiamento à infraestrutura na América Latina: oportunidades e desafios do gás natural, promovido pela FEAUSP. Além dele, mais dois especialistas em gás natural participaram do evento: o professor do Instituto de Energia e Ambiente da USP (IEE), Edmilson Moutinho dos Santos, e a advogada e colaboradora do programa de energia da USP, Hirdan Katarina Medeiros Costa. 

 

Enrique Garcia, que foi presidente do Banco de Desenvolvimento da América Latina, entre os anos de 1991 e 2017, ressaltou a necessidade de o país aumentar fortemente o investimento em infraestrutura e que o crescimento deve vir acompanhado de qualidade, baseada em tecnologia, inovação e diversificação. Ele ressaltou, porém, que uma das principais limitações não é nem econômica, mas muitas vezes política, lembrando de casos de corrupção. García citou para exemplificar 2 "elefantes brancos” construídos na Bolívia. “Como explicar que se constrói um estádio com recursos públicos para 50 mil pessoas num município que tem 8 mil habitantes? Ou um aeroporto de luxo, onde um avião pousar uma vez por semana é muito. Isso nos conduz à ineficiência e à corrupção”.

 

O professor da cátedra José Bonifácio afirmou, ainda, que para se aproximar do patamar de desenvolvimento dos países industrializados, a América Latina deve adotar agendas de desenvolvimento de longo prazo. “Se a América Latina quer alcançar o patamar de desenvolvimento dos países industrializados, em um lapso de 50 anos, terá de crescer de forma regular e permanente, pelo menos a uma taxa média de 5 a 6% ao ano”.  Segundo ele, a AL deveria adotar "uma estratégia integrada, holística, no sentido de combinar os aspectos macroeconômicos com os aspectos de eficiência, produtividade, mas ao mesmo tempo com um tema central que é a igualdade, a inclusão social e a sustentabilidade ambiental".

 

Gás natural

 

Abordando o tema “Oportunidades e desafios do gás natural no Brasil”, Edmilson Moutinho dos Santos, professor do Instituto de Energia e Ambiente da USP (IEE), disse que o Brasil perdeu o momento certo de investir no gás natural, pois não existem mais grandes compradores do produto no mundo e, para ele ser utilizado internamente em grande quantidade, o governo teria que gastar muito dinheiro em infraestrutura. “Só se constrói gasoduto se houver grandes consumidores. O mundo se preparou para vender gás para os Estados Unidos, mas agora são os americanos que querem vender gás para o mundo”.

 

Formado em economia e engenharia eletrotécnica pela USP, Santos ressaltou que o gás brasileiro vem do mar e para tornar seu consumo viável dentro do país, o custo seria grande. “Aqui o gás é offshore, está lá no meio do mar, a 400 quilômetros da costa. Para isso, precisamos desenvolver o downstream, ou seja, fazer muitos investimentos, ou em navio ou em GNL, ou em gasodutos para trazer o gás para a costa. E depois tirar o gás da costa e levar para dentro do país. E esses investimentos não estão disponíveis”.

 

O docente comentou, ainda, a proposta do governo de trocar o diesel por gás em todos os caminhões. “Hoje, o governo fala que vai substituir todos os caminhões por gás. Eu sou favorável a isso, mas quantos anos vai levar isso?”. Segundo ele, novos investimentos em gás demandariam, ainda, uma mudança de cultura do brasileiro já que há 50 anos o país é conhecido por seus investimentos em energia renovável. “Como a gente vai convencer os brasileiros que agora tem que usar gás em grandes quantidades, que é fóssil, quando nós nos sentimos orgulhosos de estarmos muito na frente do mundo em relação a renováveis?”, questionou Edmilson Moutinho dos Santos.

 

Mestre e doutora em energia, advogada e colaboradora do programa de energia da USP,  Hirdan Costa afirmou que para o preço do gás brasileiro ser competitivo é preciso investir em infraestrutura. “Quando se compara o preço do gás brasileiro com o dos Estados Unidos é sempre bom ter em mente o que eles têm de infraestrutura lá e o que temos aqui”. Hirdan disse que a indústria sempre reivindica um preço mais justo para o gás, mas para se chegar a esse estágio é necessário “alavancar um modelo em que haja outros agentes e não somente a Petrobras na oferta, fazendo uso da infraestrutura essencial para comercialização do produto”.

 

A mesa diretora (foto ao lado) do Workshop Mecanismos de financiamento à infraestrutura na América Latina: oportunidades e desafios do gás natural foi formada pelo diretor da FEAUSP, Fábio Frezatti, pelo diretor do IRI-USP, Pedro Dallari, e pelo professor Eduardo Luzio (FEA). O evento teve, ainda, como responsáveis o diretor do departamento de Economia da FEA, José Carlos de Souza Santos, além da professora Paula Pereda (FEA).

 

Data do Conteúdo: 
Quinta-feira, 22 Agosto, 2019

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