Automóvel, sua digitalização e o futuro do setor

O setor automotivo está passando por profundas transformações. Além da digitalização do automóvel, culminando com o advento do carro autônomo, existe uma pressão ambiental para a redução das emissões de gases, fato esse que fez o carro elétrico emergir como uma opção viável. Dessa forma, novos players estão surgindo e desafiando a tão tradicional e sólida indústria automotiva da forma como a conhecemos. Quem são esses novos players capazes de provocar uma disrupção no setor automotivo?

Quem responde a esse questionamento é a professora Adriana Marotti, do departamento de Administração da FEAUSP. Ela foi uma das organizadoras de um evento internacional (Gerpisa), que levantou o seguinte debate: “Who drives the change: New and traditional players in the global automotive sector”. Neste pingue-pongue com o Gente da FEA, Adriana Marotti dá o tom das mudanças que a indústria de automóveis enfrenta, como por exemplo o impacto da digitalização que pode transformar os veículos em mais um objeto da “internet das coisas”. Marotti chega a comparar o automóvel ao celular: “uma plataforma, onde o grande valor vai estar nessa eletrônica embarcada”. Confira:
 

Como a tecnologia vem revolucionando o setor automotivo?

O setor automotivo sempre foi um setor que a gente considera com uma velocidade evolutiva lenta, porque o automóvel, mesmo com todas as inovações que recebeu no último século, ainda é muito mais parecido com o que se produzia há 100 anos, do que por exemplo o computador que mudou completamente nos últimos 10 anos. Hoje, existem basicamente dois campos revolucionando o setor automotivo. Um deles é a tecnologia de motorização, que tem a ver com a substituição do motor a combustão interna por outras fontes (combustíveis renováveis, motor elétrico, célula de combustível, motores híbridos). O outro seria a junção da indústria de telecomunicações e informática com o setor automotivo. Observamos hoje uma crescente digitalização do automóvel e, mais ao extremo, a criação do veículo autônomo.   

As mudanças recentes no setor podem ser consideradas como uma disrupção, ou são entendidas como uma consequência natural da evolução do automóvel?

A indústria automotiva sempre se preocupou em aumentar muito a eficiência na produção – esse foi o grande driver dela. O automóvel é um produto de massa. O próprio nascedouro dela foi o Ford, o modelo de produção em massa, a linha de produção. Depois a outra grande revolução foi o lean production, o sistema Toyota de produção. A indústria sempre focou em mudanças incrementais no produto. Obviamente que o veículo mudou muito ao longo do tempo, melhorando em qualidade, em segurança principalmente, em consumo e em emissões de gases, mas mantendo basicamente as mesmas características: o motor a combustão interna e praticamente o mesmo design. Mas agora a gente enxerga uma força muito grande desafiando esse regime sociotécnico muito bem consolidado. Por um lado, tem a ver com a pressão ambiental, mas também tem muito a ver com o comportamento do consumidor.
 

Que tipo de comportamento?

A gente vê uma tendência de que o carro não é mais o desejo de consumo dos mais jovens. O que dá mais status hoje é ter o último celular, o último gadget eletrônico, e não mais o último automóvel. Então, isso provoca uma turbulência grande nessa indústria superconsolidada, tradicional, tão acostumada a ter somente ganhos de eficiência. E até mesmo esses ganhos de eficiência, nesses últimos anos, estão caindo, as margens de lucro das montadoras são declinantes. Acredito que tudo isso traz um cenário perfeito para que uma dessas mudanças radicais ou disruptivas, que é o carro autônomo, possa ganhar espaço no mercado.
 

Quem são os novos players do setor automotivo?

Isso é bastante interessante. Se você olhar quem está causando boa parte dessa turbulência no setor automotivo não são os players tradicionais da cadeia automotiva, ou seja, as montadoras e os fornecedores. Toda essa cadeia de suprimentos está sendo desafiada. Hoje, há quem diga que o carro autônomo vai ser como um celular: uma plataforma. Tanto é que o celular, com exceção talvez da Apple que mantém essa arquitetura integrada de produto, você não compra o celular pelo nome do fabricante, mas pelo software que tem, pelo aplicativo que roda o sistema operacional. A gente fala o celular Android, não é? Então não importa a marca, mas o sistema operacional. Imagina, então, que o automóvel, dentro dessa configuração de carro autônomo, possa se tornar algo do gênero. Eu tenho uma plataforma, onde o grande valor vai estar nessa eletrônica embarcada, nesse software que vai controlar o veículo, o entretenimento a bordo que hoje já está se tornando mais importante. E se a gente imaginar que não há mais necessidade de se dirigir, de prestar atenção, o tempo gasto no trânsito servirá para estar trabalhando, conectado na internet, vendo filme, sem o risco de bater o carro, né?


Nossa, coisa do futuro...

E isso é uma lógica de operação, até de captura de valor, completamente diferente do que as montadoras estão habituadas.


Que outros players você visualiza?

Está hoje muito se falando da Tesla, uma empresa de origem norte-americana que faz veículos elétricos. Ainda que ela tenha um nicho de mercado bastante específico, ela vem com essa lógica do setor de TI, onde muitas empresas que nascem não têm uma fonte de receita garantida. Lembra como foi o Facebook no início? A Tesla está nesse caminho. Ela conseguiu muito dinheiro de vários investidores e está se lançando agressivamente nesse mercado de veículos elétricos. Eles estão tentando agora vender um veículo elétrico de segmento mais popular no mercado americano, o tal do modelo 3.


De que forma esses players poderão afetar a tão tradicional indústria automotiva ao redor do mundo?

Acho que tem a ver com o desenvolvimento da tecnologia, em mudar a forma lógica como você hoje encara o carro. Do ponto de vista do desenvolvimento de produto, o carro é o que a gente chama de uma arquitetura bastante integrada. Ainda que boa parte dos componentes seja desenvolvida e fabricada por fornecedores, é a montadora que detém a marca, que detém toda a expertise e a competência de integrar esses diferentes módulos. Em termos práticos quer dizer que você não consegue hoje comprar um motor FIAT e colocar num Volks. Isso é impossível. Porque ele tem toda a interface desenhada exclusiva para aquele modelo. Cada marca ou montadora tem a sua arquitetura própria de produto. Num futuro, você imaginar esse cenário do carro como um celular, em que se instala um sistema operacional “X” num veículo “Y”, isso sim poderia desafiar muito essa ordem estabelecida. Mas o automóvel, ao contrário do celular, ele é um produto muito regulado, tem que atender as normas de segurança, de emissões etc.  


A FEA foi palco de um evento internacional sobre o tema. Como o Brasil está inserido em todo esse processo?

O Brasil é um caso à parte. No auge do mercado, entre 2012 e 2013, o país chegou a ser o 5º maior mercado do mundo de automóveis e o 5º maior fabricante. Não é nada desprezível. Mas por outro lado o Brasil é um dos únicos países que não tem uma indústria própria. A gente não tem uma montadora nacional, nem mais fornecedores de primeiro nível. A consequência disso é que ficamos sujeitos às estratégias das matrizes. Então, oscila muito. Há períodos em que, dependendo de como está o mercado, o Brasil acaba sendo importante como centro de desenvolvimento. Como foi na época da produção do Meriva, um carro desenvolvido inteiramente aqui pela GM. Hoje, porém, por mudança interna da estratégia da empresa, o Brasil não tem mais essa autonomia. O país é hoje vulnerável à estratégia das empresas, às mudanças de câmbio e às políticas. O que temos de diferencial é o etanol, que foi realmente um desenvolvimento local e aqui pegou.  Nesse mundo de eletrônica embarcada e de veículos elétricos, no entanto, o Brasil assiste de longe. É um problema, porque hoje o Brasil já perdeu muito da competitividade em nível internacional.

 


Autora: Cacilda Luna
Gente da FEA - Junho de 2018

 

Data do Conteúdo: 
quinta-feira, 7 Junho, 2018

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