Análise e Opinião - São Paulo é como “o mundo todo”

“A pujança paulistana é do tamanho de seus problemas. O que fazer? A regra geral seria incentivar o crescimento de economias externas e coibir as externalidades negativas.”

    A RIQUEZA DA DIVERSIDADE DAS AGLOMERAÇÕES PODE SER VISTA DENTRO DA HIERARQUIA URBANA. De um lado encontramos metrópoles muito diversificadas. De outro, cidades ou regiões especializadas. Aglomerações também se manifestam em escalas menores configurando as cidades internamente. Vemos por exemplo a formação de distritos industriais, centros comerciais ou de entretenimento em alguns bairros, grupos de rua ou até em uma única rua. De uma forma geral pode-se entender estas configurações espaciais como resultado de processos envolvendo dois tipos de forças opostas: forças de aglomeração e forças de dispersão. A literatura recente de economia espacial enfatiza que estas forças estão associadas com a presença de retornos crescentes e externalidades. As implicações são variadas e complexas, impactando crescimento econômico, progresso tecnológico, organização industrial, desigualdade, bem-estar e problemas ambientais.

    Em São Paulo constatamos esta riqueza de paisagens econômicas e o embate de forças de aglomeração e dispersão. De um lado, moradores e visitantes beneficiam-se da maior disponibilidade de produtos e serviços. O mercado de trabalho também é mais robusto comparado a outras cidades no Brasil. O tamanho da população e a diversidade das pessoas que aqui circulam fazem da cidade um excelente lugar para encontros frutíferos e aprendizagem. De outro lado, os benefícios de São Paulo não ocorrem sem custos. Bem conhecemos o trânsito caótico e os problemas com segurança. Além disso, o custo de vida é bem superior e o setor público tem que fazer grandes esforços para prover serviços e equipamentos urbanos para uma população enorme. 

    Para entender São Paulo, entretanto, precisamos também olhar para fora. Por maiores que sejam, cidades funcionam como pequenas economias extremamente abertas. As dinâmicas aqui verificadas dependem do restante da malha urbana. O crescimento das favelas em muito se explica pela situação em que suas populações viviam em seus lugares de origem. Milhares de pessoas, que vivem em outros lugares, trabalham aqui. Os produtos e serviços aqui produzidos destinam-se às mais diversas localidades. Para muitos não se pode olhar para São Paulo fora da Macrometrópole paulista. Para outros, São Paulo e Rio de Janeiro formam uma só Megalópole.

    A pujança paulistana é do tamanho de seus problemas. O que fazer? A regra geral seria incentivar o crescimento de economias externas e coibir as externalidades negativas. A co-existência de boas estruturas de educação, saúde, transportes e segurança é necessária. Planejamento urbano para valer também. Mas os problemas de São Paulo só serão resolvidos de forma persistente se forem tratados em uma perspectiva que leve em conta todo o sistema urbano. Em outras palavras, não é possível ou desejável separar o desenvolvimento de São Paulo do desenvolvimento do Brasil. Como já foi cantarolado por aí, São Paulo é como “o mundo todo”.

DANILO IGLIORI
PROFESSOR DO DEPARTAMENTO DE ECONOMIA DA FEA-USP

Data do Conteúdo: 
quarta-feira, 1 Outubro, 2008

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