Diva Benevides Pinho

Foto da Professora Diva Pinho

Uma das mais dinâmicas docentes que a FEA já teve - seu papel extrapola o ensino e a pesquisa – a professora Diva Benevides Pinho plantou uma semente que, com certeza, perdurará por muito tempo: sensibilizou a “família feana” sobre a necessidade de se desenvolver uma cultura de cooperação, de retribuição à Universidade.

Tão logo foi agraciada com o título de professora emérita pela Congregação, em 2009, ela pôs em prática seu projeto de ajudar a Faculdade a captar recursos e de contribuir para que a instituição continue sendo um núcleo de excelência acadêmica e referência internacional em pesquisa e produção científica. Criou o Funcadi (Fundo Carlos e Diva Pinho), um projeto idealizado junto com seu falecido marido, o Prof. Carlos Marques Pinho, também da FEA.

O Fundo foi constituído para apoiar o departamento de Economia com bolsas de pesquisa. Mais tarde, em 2011, a professora inaugurou a Casa de Cultura Carlos e Diva Pinho, no Pacaembu, um espaço para promover atividades culturais, com renda destinada ao Funcadi. Com recursos do Fundo, a Biblioteca da FEA foi presenteada com um auditório e o prédio FEA-2 ganhou uma sala para uso das atividades acadêmicas do departamento de Economia.

Diva Pinho conclamou a comunidade a contribuir com a Universidade: “Toda a minha experiência, a minha cultura, tudo o que sou e fiz, eu devo à USP. Em gratidão tenho trabalhado muito para que a Universidade consiga levantar recursos. Nesse esforço, conclamo os ex-alunos a darem sua contribuição para que essa faculdade continue sendo um centro de excelência”.

A trajetória acadêmica da professora emérita Diva Benevides Pinho e sua dedicação à Universidade estão assinaladas nas páginas da história da FEA. Professora titular do Departamento de Economia, ela ingressou na instituição em 1970, após a Reforma Universitária que transferiu as disciplinas ligadas à economia da antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL), então na rua Maria Antonia, para a FEA.

Foi assistente na FFCL do professor catedrático francês Paul Hugon, da cadeira de Economia Política e História das Doutrinas Econômicas. Quando a matéria foi integrada à FEA, Hugon trouxe sua equipe de trabalho. Diva Pinho já era livre-docente. Ao todo, 16 docentes de Economia dos cursos da FFCL foram transferidos para a FEA.

Diva Pinho pode ser considerada herdeira intelectual da missão francesa, de tradição humanista, que implantou o ensino de economia na USP. Os primeiros professores de universidades e liceus franceses chegaram a São Paulo em 1934 com a missão de organizar os cursos da FFCL. Eram jovens formados na área de Humanidades e pregavam o aspecto humanístico dos estudos econômicos.

Dona de um currículo de fazer inveja, Diva Pinho realizou todos os seus estudos na USP. Formou-se inicialmente em Ciências Sociais (1949) e, posteriormente, em Ciências Jurídicas e Sociais (1955). Em 1959, obteve a licenciatura em Ciências Sociais. Fez doutorado em Economia (1961) e obteve a Livre Docência (1964) na FFCL.

“Estudei com grandes mestres, entre os quais o sociólogo e educador Fernando de Azevedo, um dos idealizadores da USP e da FFCL juntamente com outros intelectuais e os Mesquitas, de O Estado de São Paulo, que somaram esforços para fundar uma Universidade, até então inexistente no Brasil”, recorda-se Diva Pinho, em seu livro de memórias “O Tempo Revisitado”(2015).

Após ingressar na FEA (1970), Diva Pinho tornou-se professora titular em 1976. Foi chefe do Departamento de Economia por oito anos. Lecionou várias disciplinas, tanto na FFCL quanto na FEA, com destaque para História do Pensamento Econômico e Sistemas Econômicos Comparados. Após sua aposentadoria (1995), Diva Pinho continuou na FEA como pesquisadora. Em 2009, em reconhecimento à sua relevante atuação acadêmica, a Congregação outorgou-lhe o título de professora emérita.

No discurso em agradecimento ao título, a professora contou que vivenciou na FEA a transição do modelo francês de ensino de estudos econômicos para o modelo de ensino de uma economia quantitativa, provocada pela pressão desenvolvimentista da economia brasileira na década de 70, época do “milagre econômico”. Segundo ela, houve adequação da estrutura curricular e um grande esforço de reciclagem dos professores.

No livro “O Tempo Revisitado”, Diva Pinho explica melhor essas transformações no ensino da economia. “No mundo ocidental, a orientação dos estudos acadêmicos de economia mudou a partir do final da 2ª Guerra, como consequência do desenvolvimento nos EUA de uma economia quantitativa, matemática, estatística e econométrica”.

Segundo Diva, vários fatos contribuíram para que os EUA ocupassem a cena econômica e educacional no Ocidente, superando a França e a Grã-Bretanha. Ela cita “o estreitamento dos contatos diretos entre matemáticos, estatísticos, economistas e administradores civis e militares em instituições ligadas à pesquisa militar nos EUA, durante a 2ª Guerra, como parte do esforço para vencer os inimigos; e a continuação, depois da Guerra, de pesquisas multidisciplinares aplicáveis às atividades militares e econômicas em geral, tais como a utilização da teoria dos jogos, programação linear, análise de sistema, alocação ótima de recursos, pesquisa operacional e outras”.

Diva Pinho foi uma das pioneiras no estudo do cooperativismo no país. É autora de vários livros sobre o assunto, entre eles “O Cooperativismo no Brasil – A Vertente Pioneira à Vertente Solidária” (2003). É membro do conselho consultivo da Ocesp (Organização das Cooperativas do Estado de São Paulo).

As três teses defendidas por ela, tanto no doutoramento, quanto nos concursos para livre docente e professor titular, todas versaram sobre cooperativismo. Diva Pinho pesquisou diferentes enfoques do cooperativismo: econômico, teórico, doutrinário e sistêmico. Também analisou o papel das cooperativas no agronegócio, na organização do trabalho e no sistema financeiro de crédito do Brasil.

Outra área em que a professora emérita mergulhou foi a arte. Pesquisou sobre mercado de arte e economia da arte, aliando suas áreas de estudo. Um de seus estudos foi sobre as manifestações artísticas dos jovens da periferia de São Paulo e a possibilidade de reuni-los em cooperativas de trabalho de arte de microcrédito. Em 1989, escreveu o livro “Arte como investimento”. Diva participou também de inúmeras atividades da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão, em especial de seus centros culturais e cursos de extensão universitária.

Em 2006, a professora Diva Pinho idealizou, junto com Joaquim Guilhoto, a AMEFEA – Associação de Amigos da FEAUSP, que foi criada com o objetivo principal de apoiar a formação dos graduandos por meio de concessão de bolsas de estudo, inicialmente do departamento de Economia e posteriormente estendida a todos os departamentos.

Jornal Gente da FEA, edição de setembro de 2015, por Cacilda Luna