Trabalho infantil pode prejudicar saúde no futuro

por Rafael Benaque

Apesar de ser proibido por lei, o trabalho infantil ainda é muito presente na sociedade brasileira. Dados de 2006 mostram que aproximadamente 4,8 milhões de crianças estão fora da escola e, muitas vezes, em atividades perigosas e insalubres. Sabendo disso, a professora da Escola de Artes e Ciências Humanas Marlisley Nishijima (EACH – USP Leste) está realizando um trabalho sobre o assunto, para verificar quais os danos que a entrada precoce no mercado de trabalho causa à saúde e de que forma isso ocorre. Em seminário, a pesquisadora apresentou seu projeto na FEA.

Apesar da importância do assunto para o país e o desenvolvimento de políticas públicas em diversos campos, é muito difícil encontrar dados concretos e confiáveis, pois as estatísticas subestimam, de certa forma, a presença de crianças no mercado de trabalho. O difícil acesso a zonas rurais (onde o trabalho infantil é mais presente) e a negação da própria família são exemplos de obstáculos para um estudo mais preciso do problema.

Este tipo de levantamento estatístico tem outro problema. Como conta com dados auto-reportados da PNAD, muitas vezes há uma diferença de visão e de classificação que, para avaliar o impacto do trabalho precoce sobre a saúde, se torna muito relevante. Uma mulher que fez faxina em casa quando com 10 anos, pode não relatar isso em pesquisa, por não considerar tal atividade um trabalho. Porém, se o serviço for pesado, este terá um impacto negativo na saúde dessa mulher e, apesar disso, não entrará para a pesquisa.

No entanto, mesmo com essas dificuldades operacionais, a professora conseguiu chegar a algumas conclusões. É evidente que alguns serviços são insalubres e afetam diretamente a saúde do indivíduo. O corte de cana e o trabalho em carvoarias, por exemplo, são bastante nocivos para a criança e, com certeza, prejudicarão consideravelmente a saúde futura dela.

Além do déficit direto, o trabalho infantil também tem um impacto social que deve ser levado em conta. Por precisar se dedicar a tarefas remuneradas para ajudar a família, a criança perde anos de estudo. Dessa forma, por não possuir uma instrução satisfatória, muitas vezes aquele que entrou no mercado de trabalho precocemente terá uma baixa renda no futuro e acabará dependendo do sistema de saúde pública, que sabe-se ser débil e insatisfatório.

Assim, o trabalho infantil tem um impacto direto e outro indireto na saúde futura da criança. Enquanto pode prejudicar a saúde física através de um serviço penoso ou insalubre, a perda de anos de estudo pode fadar essa criança a ter uma baixa renda e depender do deficitário sistema público de saúde. Esse é um assunto que precisa ser estudado mais a fundo, pois pode dar diretrizes para projetos tanto na área de saúde quanto de educação, emprego e de benefícios sociais, para evitar que mais criançs sejam colocadas de forma precoce no mercado de trabalho.
 

Data do Conteúdo: 
sexta-feira, 3 Outubro, 2008

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