Revista Veja organiza debate sobre economia brasileira

por Rafael Benaque

A economia mundial passa por uma séria turbulência. A crise financeira coloca em cheque a falta de regulamentação sobre o mercado, o crescimento dos países emergentes tem trazido novas caras para o cenário internacional e os desequilíbrios acabam afetando cada vez mais Estados e de forma mais grave. Para falar sobre a economia nesse novo cenário, a revista Veja organizou em parceria com o Departamento de Economia, um debate, realizado no auditório do FEA-5, que contou com a participação dos profs. da FEA Celso Luz Martone e Fabio Kanczuk, o docente do Ibmec Eduardo Giannetti e o pesquisador do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) Paulo Levy sob a mediação do editor de economia da Veja Giuliano Guandalini.

Um dos pontos abordados foi a questão do crescimento brasileiro. Segundo os debatedores, esse crescimento brasileiro tem muito a ver com as condições externas. “Eu temo que o crescimento recente brasileiro se deva muito mais à bonança mundial do que a virtudes próprias”, confessou Martone. Consoante com ele, Giannetti também destacou que, apesar de estar mais preparado para absorver as perdas vindas da crise, o país ainda tem graves problemas para atingir um crescimento sustentável e independente elevado. “Quando olhamos a médio e longo prazo, nós temos problemas muito graves ainda (...): baixa poupança, baixo investimento e um problema crônico de falta de capital humano”, afirma.

Segundo Paulo Levy, muito desse preparo do país em administrar melhor a crise se deve à eliminação da dívida externa líquida. “Hoje o Brasil é credor em termos líquidos e exatamente por conta dessa posição nós fomos capazes de manter um câmbio relativamente apreciado até recentemente”, explica. Para ele essa condição também permite absorver essa desvalorização da moeda de forma não traumática, como foi em outros episódios.

Para Kanczuk, apesar de o Brasil ser atingido negativamente por esse cenário mundial, os danos não serão tão grandes. “Não vai ser igual aos Estados Unidos, subprime tupiniquim, nada disso. Aqui foi uma coisa muito mais bem administrada. Os bancos foram mais conservadores”, diz o professor.

Sobre possíveis soluções, Martone afirmou que reavivar a Rodada Doha, por exemplo, é algo inviável no momento. “Quando o futuro é tão incerto assim, não se avança nada. Os países não estão dispostos a oferecer nada em troca”, acredita. Com relação a isso, Levy acredita que, ao contrário do que visa o conjunto de propostas, o Brasil não pode se isolar da crise. “O país precisa aceitar a realidade que o mundo está colocando, que pode ser resumida em ‘vai ser mais difícil financiar um déficit de conta corrente, para o qual estávamos nos encaminhando’”, especula.

Quando questionados sobre que medidas tomariam se fossem o “ditador supremo” do Brasil, os debatedores concordaram que é necessária uma reforma tributária. Segundo Levy, seria preciso tornar a carga tributária menos distorcida. Kankuck foi mais radical: “Eu faço reforma da previdência, brutal, e faço corte de gastos e de carga tributária; faço o estado brasileiro desaparecer”, sentenciou.

Sobre os impostos, Gianetti tentou fazer um prognóstico. Segundo ele, a arrecadação de impostos tem se comportado, no Brasil, de forma pró-cíclica, isto é, aumente de forma desproporcionalmente em períodos de crescimento do PIB, mas também ocorre o inverso em momentos de retração e a arrecadação vai cair desproporcionalmente. “Mas os gastos públicos já estão contratados. Eu queria arriscar uma previsão: o governo Lula vai fazer novas tentativas de tributar”, afirmou o economista

Acredito que, nesse barco viking da crise atual, o Brasil está junto com os demais países em desenvolvimento, mais para o centro do casco. Mas a oscilação, apesar de não mexer tanto com a economia local, provocará ainda bons enjôos por aqui.
 

Data do Conteúdo: 
quarta-feira, 5 Novembro, 2008

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