Professores da FEA discutem a crise financeira atual

por Rafael Benaque

A última semana foi uma das mais tensas da história para o mercado financeiro mundial. Apesar da recuperação causada pelos planos bilionários europeus de resgate aos bancos, as perdas continuam grandes. A bolsa islandesa, por exemplo, fechada desde quinta-feira, reabriu hoje com queda de 76%. Para discutir essa situação, o Centro Acadêmico Visconde de Cairu (CAVC) organizou um debate com os professores Carlos Eduardo Soares Gonçalves, José Francisco de Lima Gonçalves e Leda Paulani

A mesa foi montada de forma bastante heterogênea, contando com Carlos Eduardo, de orientação mais neo-clássica, e com Leda e José Francisco, ambos com influências maiores de Keynes e Marx, este último professor de história econômica. Esse fato foi destacado pelos três como sendo algo positivo e que enriqueceria a discussão.

A mesa iniciou o debate perguntando quem ou o que teria causado a crise e o que está por trás desta. “Nem quem nem o quê. O que está por trás é uma forma de levar a economia”, respondeu Leda, segundo quem, a crise se deve a financeirização da economia e a falta de regulação por parte dos governos.

“Tudo o que a humanidade aprendeu entre 29 e 45 foi devidamente esquecido. Tanto no período da guerra-fria quanto no período do triunfo americano, de Reagan até o Bush atual”, atesta José Francisco. Para o professor, esse abalo nos mercados foi causado pelo “triunfo de um discurso que tem por base o ‘deixa rolar’”, isto é, o neoliberal.

Com essa crença, a pouca regulação acaba fazendo com que a busca por lucros cada vez maiores gerem uma desestabilização muito séria. Por conta dos baixos juros e da valorização dos imóveis, os bancos passaram a refinanciar hipotecas e dar crédito para o setor chamado de subprime, pessoas de baixa renda e com mais dificuldade de quitar suas dívidas. Esse tipo de empréstimo, por ser mais arriscado traz muito mais retorno. A esperança de rendimentos altos fez com que investidores comprassem esses títulos, o que permitiu que as companhias emprestassem mais dinheiro antes que a primeira dívida fosse paga.

Essa cadeia de compra e venda de títulos entra em colapso quando o tomador falha em sua responsabilidade, pois aqueles que compraram títulos baseados nesse empréstimo não poderão receber. Isso gerou uma crise de confiança, já que todos tinham medo de comprar os subprime, o que levou a um encolhimento do crédito e a uma crise de liqüidez.

Apesar de ser o palco principal desta crise, o mercado financeiro é muito importante na economia capitalista. Segundo Carlos Eduardo, não é o crescimento econômico que reboca o mercado financeiro, mas o contrário. Isso fica claro quando olhamos a história: o desenvolvimento e afirmação dos Estados nacionais só foi possível devido ao financiamento das burguesias comerciais, interessadas em enfraquecer a nobreza e os senhores feudais.

O problema, no entanto, é a falta de regulação. “O crédito é uma condição sine qua non da economia capitalista”, afirma Leda. No entanto, quando se perde o controle sobre essa prática, o sistema passa a buscar um crescimento insustentável. Consoante com essa postura, Carlo Eduardo acredita que “o mercado de crédito tem particularidades que exigem maior regulamentação do Estado” .

Quando questionados sobre possíveis soluções para a crise, as respostas foram cautelosas. “Se nós soubéssemos como resolver essa questão, sairíamos daqui cotados a preço de ouro”, brinca Leda. No entanto, Carlos apontou uma saída interessante: o Estado compraria ações dos bancos para capitalizá-los. Isso possibilitaria um fortalecimento destas instituições e, aos poucos, a situação voltaria ao normal.

Esta medida está sendo tomada com efeitos muito positivos na Europa. Graças às injeções bilionárias realizadas no continente, muitos países assistiram a uma retomada de seus mercados financeiros. Apesar de esta crise estar longe do fim, parece que, com a cooperação e o bom senso dos Estados, acreditar em uma recuperação não é assim tão otimista.
 

Data do Conteúdo: 
terça-feira, 14 Outubro, 2008

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