Profª Drª Diva Benevides Pinho faz seus agradecimentos ao receber da FEA-USP o Título de Professora Emérita

Profa. Dra. Diva Benevides Pinho
Agradecimentos ao receber da FEA-USP
titulo de Professora Emérita

Magnífica Reitora da USP – Profa. Dra. Suelly Vilela, Magnífico Vice-Reitor, Exmo Senhor Diretor da FEA-USP - Prof. Dr. Carlos Roberto Azzoni, Membros da douta Congregação e professores da FEA-USP, meus amigos e minhas amigas, meus familiares Benevides, Dotto, Pinho e Arvai-Pereira. Gostaria de saudá-los individualmente, mas na impossibilidade de dar um abraço em cada um, agradeço a presença de todos aqui.

O Prof. Dr. Helio Nogueira da Cruz, que me apresentou, falou sobre o meu trabalho no início da década de 1970, ao chegar da então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP (FFCL, hoje FFLCH), a esta FEA em decorrência de ampla reforma universitária que extinguiu as cátedras, democratizou a carreira docente, criou os Departamentos como a menor Unidade da USP dirigida por Conselhos próprios, fracionou a dinâmica e politizada “FFLCH da Maria Antônia” em uma dezena de Faculdades especializadas, redistribuiu os docentes de acordo com a matéria que lecionavam, entre outras mudanças.


Realmente, cheguei na FEA em um momento difícil e delicado – além da reforma universitária, a FEA passava do ensino de uma economia institucional, de modelo francês, que havia se espalhado no Ocidente quando a França era o carrefour du monde, para o ensino de uma economia quantitativa, matematizada, de aplicação prática.


O abandono do modelo francês de estudos econômicos decorreu, sobretudo, das pesquisas desenvolvidas nos EUA durante a 2a. Grande Guerra (1939-1945) - período em que os Estados Unidos reuniram grandes especialistas do mundo inteiro nas áreas de economia, matemática, física, engenharia e outras especialidades, e ofereceu-lhes excelentes condições de pesquisas e de integração nas universidades (inclusive remuneração especial e nacionalidade norte-americana) para que ajudassem rapidamente a criar teorias e planejar ações com o objetivo de “ganhar a guerra”. Aliás, no pós-guerra, importantes desses estudos foram utilizados para a paz, inclusive nos campos da saúde e do ensino.


Naquela ocasião surgiram também as bases da comunicação usada pelos EUA com suas tropas espalhadas pelos vários Continentes, e que contribuiriam para o desenvolvimento da Internet (anos 1960) e da WWW (Wide World Web) na década 1980 - hoje o meio de comunicação em tempo real mais difundido e que vem provocando extraordinárias mudanças em todas as áreas do conhecimento, inclusive no ensino.


Então, cheguei nesta FEA no momento de um complexo de grandes mudanças - a pressão desenvolvimentista da economia brasileira na década de 1970 (que se tornou conhecida como “milagre econômico brasileiro”), a implantação do ensino de uma Economia quantitativa, e a adequação da estrutura curricular dos cursos do Departamento de Economia da FEA para enfatizar as disciplinas básicas de teoria econômica, macroeconomia, econometria, planejamento do desenvolvimento econômico, economia financeira, além de criar novas disciplinas eletivas.


Foi grande o esforço de reciclagem dos professores do Departamento de Economia; e grande, também, o esforço de criação de indicadores econômicos de especial interesse do empresariado e do sistema financeiro e bancário.


Ao mesmo tempo, avolumava-se a necessidade de economistas-consultores-assessores, especialmente no Estado de São Paulo em decorrência de seu rápido desenvolvimento industrial. A Capital paulista deixava de ser a Metrópole do Café para se tornar a dinâmica Metrópole Industrial do Brasil. Paralelamente, cresciam as exigências para a atuação de economistas especializados nas áreas da indústria, comércio, finanças, transportes e prestação de serviços.


Ao optar pelo modelo de fundação, mais flexível que o de instituto, o Departamento de Economia criou, em 1973, a FIPE, Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, porém vinculada ao IPE (criado em 1964) e à FEA-USP por meio de eleição periódica de seus dirigentes e de seu Conselho Curador pelo Conselho do Departamento de Economia. Aliás, meu marido Carlos Marques Pinho, também Professor Titular desta FEA, criou essa vinculação ao elaborar o Estatuto da FIPE (por solicitação da Diretoria da FEA).


Concomitantemente, intensificava-se a ascensão do economista na área governamental e, então, os governos da União, Estados e Municípios começaram a convidar nossos professores para assessorá-los e orientá-los. Era um fato altamente positivo para a FEA-USP, que se afirmava como “centro de excelência” e destacava-se no cenário econômico nacional e internacional.


Contudo, esse destaque da FEA provocava o aumento da demanda de especialistas junto ao Departamento de Economia. Como Chefe do Departamento de Economia (EAE), durante oito anos, eu vivi aquele momento crucial de solicitações de afastamento de docentes de Economia por altas autoridades administrativas e políticas do País e o sacrifício dos docentes que tinham suas cargas didáticas multiplicadas em áreas diversas. É que, embora os afastamentos fossem sem remuneração, a Reitoria não autorizava a contratação de substitutos. Momento delicado, mas fui apoiada pelo Conselho do Departamento de Economia e, com a cooperação dos docentes, conseguimos manter o alto padrão de ensino de Economia que caracteriza a FEA.


E hoje, neste momento, eu tenho também a honra de presenciar outras mudanças muito importantes (aqui eu abro um parênteses para destacar a importância da longevidade...). Muitas dessas mudanças decorrem da inesperada crise financeira de 2008, o “tsunami” que começou nos Estados Unidos, o coração do capitalismo, e atingiu os países mais desenvolvidos da Europa.


Essa crise súbita, iniciada com a quebra do Banco Lehman Brothers, nos EUA, deixou atônitos os analistas econômicos e as maiores autoridades da área econômico-financeira mundial. E então, a eficiência dos principais indicadores econômicos passou a ser vigorosamente contestada: como se pode fazer projeções com base no PIB (Produto Interno Bruto), que mede a produtividade, porém não mede os danos ambientais, a sustentabilidade, o progresso social, a qualidade de vida, a saúde, a educação?


Então, a crise de 2008 levantou a questão da urgente necessidade de revisão do instrumental estatístico e econômico até então utilizado. Aliás, a rainha da Inglaterra, em visita à renomada London School of Economics logo após a crise financeira de 2008, indagou se tal crise poderia ter sido prevista e as frespostas que obteve foram insatisfatórias. Depois, Sarkosy (Presidente da França) foi além – liderou a convocação de um grupo de notáveis, entre os quais vários prêmios Nobel da Economia, para analisar o instrumental macroeconômico e estatístico utilizado nas projeções econômicas e sugerir outras ferramentas.


E assim, com a crise de 2008, a Economia quantitativa começou a sentir a necessidade de reencontrar seu complemento - a Economia qualitativa, de “face humana”, para que se possa preparar o economista dentro de uma visão não apenas multidisciplinar, mas também transdisciplinar, em conexão com o mundo, com a ética, a vida e o ser humano .


Lembro-me de um mestre da Missão francesa, Gilles Gaston Granger, especialista em metodologia da ciência econômica que há muitas décadas já observava: a economia é uma ciência que enfrenta um grande dilema porque ela é, ao mesmo tempo, uma ciência social e uma ciência de coisas concretas, que são produzidas, avaliadas, pesadas, contadas, transportadas e vendidas em mercados nacionais e internacionais. Então, como compatibilizar os interesses humanos com os interesses econômico-financeiros? Sabe-se, porém, que investir na educação e na saúde de pessoas é tão importante quanto investir na produção de bens para aumentar o PIB (Produto Interno Bruto).


Esse conflito de finalidade da ciência econômica também transparece na denúncia de Joseph Stiglitz, prêmio Nobel de Economia (2001) quando criticava o FMI (Fundo Monetário Internacional), criado em Bretton Woods, na reunião de Chefes de Estado (com a presença de grande economista Keynes), no final da 2a Grande Guerra (1945). Dizia que o “remédio amargo” que o FMI impunha às economias em desenvolvimento, como o Brasil, criava uma “paz de cemitério” porque arrasava a produção, aumentava o desemprego e desestatizava, em direção ao “Estado mínimo”.


Mas em 2008, quando a crise abalou os principais países capitalistas (EUA e Europa), qual foi o remédio para acudir as economias mais importantes do mundo? Foi uma enorme estatização, um socorro financeiro fantástico do Estado, liberando rapidamente bilhões para socorrer bancos e empresas... (É claro que os custos serão cobrados das próximas gerações...).


Na realidade, a rápida volta do keynesianismo segurou a crise. E um ano depois parece que já passou a ameaça de uma grande depressão, do tipo 1929-30. Segundo os maiores economistas do mundo, inclusive da Wall Street (os mesmos que não previram a crise de 2008...), não estamos mais na beira do abismo, embora a situação ainda seja frágil.


E por que o mundo está saindo da crise? Porque os BRICs - novos atores em cena – estão “puxando” a economia mundial para cima. Sigla criada na Wall Street para designar quatro países – Brasil, Rússia, China e Índia - de dimensões quase continentais, os BRICs pouco têm de comum entre si, a não ser a vontade de participar do centro do poder mundial ou G7.
E agora está sendo redesenhada uma nova “gerência não intrusiva” da economia mundial na qual as cúpulas de chefes de Estado do G20 substituirão as reuniões anteriores, que se realizavam apenas com a presença de ministros e de presidentes centrais do G7. E já se fala em G30, com a presença, também, dos presidentes de bancos centrais e de financistas.


Assim, o Grupo de países desenvolvidos, mais países emergentes, mais autoridades financeiras e monetárias, seria um novo fórum mundial incumbido de discutir uma nova política global e de corrigir desequilíbrios como aqueles que estiveram na origem da crise de 2008. E o FMI, por sua vez, poderia se converter em um “Banco Central Global”, com nova missão em debate, inclusive no sentido de criar amplos fundos de segurança para evitar graves turbulências das economias dos países.


Então, eu vivo em um momento muito gratificante porque estou presenciando grandes transformações econômicas no mundo e participando de reflexões sobre seus impactos sobre o ensino de economia e sobre reconhecimento da necessidade de embasamento humano da Economia – reflexões que, há várias décadas, já eram levantadas pela Missão Francesa na USP.


E como estou aposentada mas não sou aposentada, quero participar dos esforços da FEA para reintroduzir esse “supplément d’âme” de que falava Bérgson, e tão necessário à formação de economistas.


Finalmente, ao terminar, quero agradecer à USP pela oportunidade que tivemos, eu e meu marido, de aqui realizar dois cursos superiores – Economia e Direito. E como o Prof. Dr. Carlos Pinho também amava muito a FEA, conversamos longamente e ele chegou a planejar um esquema do que deveria ser feito com as poupanças que nós conseguimos acumular ao longo de várias décadas: estimular pesquisas econômicas de mestrado, doutorado e trabalhos de fim de curso de alunos de graduação.


Já conversamos com o professor Azzoni para ancorar nesta FEA o PROCARDI - Programa Carlos e Diva Pinho – como parte do nosso reconhecimento à USP. E, agora, falando por nós dois, eu agradeço à USP pela oportunidade que ambos tivemos de aqui estudar gratuitamente e, ao longo de nossa carreira docente, receber autorização de afastamentos com vencimentos para nos reciclar nos EUA e em alguns países europeus.


Quero juntar meus esforços aos de meus colegas e participar, como voluntária, de atividades culturais e associações de amigos a fim de que nossa FEA-USP continue sendo um importante celeiro de novos talentos.

Data do Conteúdo: 
segunda-feira, 28 Setembro, 2009

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