Produção de cana-de-açúcar não colabora na redução da pobreza

por Rafael Benaque

O Brasil apresenta uma das piores concentrações de renda do mundo e, apesar de ser considerado urbano, o país ainda tem na cana-de-açúcar um de seus principais produtos de exportação que, com uma tendência ao aumento na procura por biocombustíveis, é um setor da agricultura com grande perspectiva de crescimento. Dessa forma, a produção de cana teria um grande potencial na redução da pobreza e da desigualdade o que, na prática, não acontece. Esse foi o tema do seminário acadêmico apresentado pela professora da Universidade Federal de Pernambuco, Tatiane Menezes na FEA.

Nos últimos anos, a participação da cana-de-açúcar no PIB agrícola do Brasil tem variado entre 10% e 16,5%, sendo que o principal estado produtor é São Paulo, com 53,3% da área utilizada para esse cultivo. No entanto, o mesmo estado emprega apenas 28,1% dos trabalhadores do setor. Isso evidencia a mecanização deste tipo de plantação, que chega a ser total no plantio e transporte e quase 35% na colheita.

Para cumprir seu propósito de reduzir a desigualdade, o cultivo da cana precisaria incluir também pequenos produtores, o que não acontece. Além disso, “por ser muito perecível, 75% da cana é plantada próxima aos engenhos, que contratam trabalhadores sazonais para trabalhar na lavoura”, conta Tatiane. Esses trabalhadores são, em geral, muito mal pagos e acabam presos a uma condição de vida muito pobre.

Com dados baseados nas PNADs realizadas entre 1992 e 2006, o índice Gini do país, que era de 0,562 em 2006, não foi reduzido significantemente pela produção de cana. De acordo com esses dados, até 1999, a agricultura reduziu sua participação na concentração de renda, mas também diminuiu sua participação na economia, o que anula o efeito. Além disso, depois de 1999, “tanto a produção de cana como a agricultura em geral cresceram e concentraram mais os lucros e acabaram contribuindo com uma piora da pobreza”, explica a pesquisadora.

Dessa forma, ao contrário das expectativas criadas, o cultivo da cana-de-açúcar não funcionou como um antídoto contra a desigualdade, mas, ao contrário, acabou até acentuando a pobreza. Com a mecanização, que gera mais empregos para profissionais qualificados e reduz vagas para trabalhadores com menos instrução, e com a concentração de terras, a lavoura açucareira favorece a perpetuação das péssimas condições de vida dos trabalhadores rurais e o enriquecimento dos grandes proprietários de terra.
 

Data do Conteúdo: 
quarta-feira, 29 Outubro, 2008

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