Pesquisa indica que desigualdade no Brasil é maior do que se imaginava

No último dia 3, Marcelo Medeiros, professor do departamento de sociologia da Universidade de Brasília (UnB) e pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), apresentou os resultados de um levantamento sobre a desigualdade de renda brasileira na FEAUSP. Na pesquisa, foram encontradas evidências  de que a desigualdade de renda no Brasil é maior do que se imaginava e permaneceu estável entre os anos de 2006 e 2012, contrariando dados disponíveis até então. Além disso, houve crescimento de renda, mas os ricos se apropriaram da maior parte.

Além de Marcelo Medeiros, participaram da pesquisa  Pedro Ferreira de Souza e Fábio Avila de Castro. Os pesquisadores construíram uma série de indicadores de desigualdade com base nas declarações de Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF) de 2006 a 2012. Foram foco  os 0.1%, 1% e 5% mais ricos da população, interessando à pesquisa a desigualdade entre os mais ricos e o restante da população brasileira. Aqui, por ricos entendem-se adultos de renda individual mais alta e não os que têm maior estoque de riqueza, embora essas condições possam coincidir.

Os resultados obtidos a partir de dados tributários foram comparados com os das principais pesquisas domiciliares brasileiras: a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad), a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), e o Censo Demográfico. A comparação serviria para auxiliar na revelação da parte da desigualdade que não é conhecida por falta de dados apropriados, sendo que, a partir dessa comparação, os pesquisadores puderam constatar que a desigualdade no Brasil é superior à medida por pesquisas domiciliares, além de ter se mantido estável no período analisado.

Marcelo Medeiros declarou que “o maior nível de desigualdade está muito provavelmente ligado à subestimação das rendas mais altas na Pnad e em outras pesquisas”, isto é, as rendas altas podem ser ainda maiores em relação ao restante da população do que os dados apontam. Enquanto a hipótese para a estabilidade seria a de que os ricos são mais resistentes à queda da desigualdade do que o restante da população. De acordo com ele, “o que faz a Pnad estar subestimada é que ela não chega à casa dos ricos, pois as amostras são pequenas - são 400 mil domicílios pesquisados, enquanto o Censo vai a 6 milhões”.

Pesquisa com a  parcela mais rica

Eles optaram por estudar os ricos, pois, segundo Medeiros, “o que eles controlam vai muito além do consumo”. Geralmente, ao estudar desigualdade, leva-se muito em consideração a renda, no entanto, o professor afirma: “Quando olhamos para a renda, estamos olhando uma parte pequena da desigualdade”. O acúmulo de riqueza e bens de capital seria responsável por outra parte da desigualdade. “A acumulação garante o comando de recursos”.

Estudos baseados em informações tributárias de países europeus e da América do Norte demonstram elevada desigualdade no início do século XX, seguida de uma queda que ocorre no período entre as duas guerras mundiais, um período estável que se estende até o início dos anos 80 e um crescimento da desigualdade desde então. Como a desigualdade se dá - a velocidade das mudanças e a duração de cada um desses períodos - varia conforme o país.

No Brasil, os pesquisadores constataram que os 5% mais ricos da população detêm cerca de 45% da renda total do país; o 1% mais rico recebeu 25%; e o 0,1% mais rico apropriou-se de quase 11% da renda total, o que significa dizer que sua renda média foi quase 110 vezes maior do que a renda média nacional. Embora as pesquisas domiciliares identifiquem melhoras na base da distribuição, ou seja, entre os mais pobres, a desigualdade total depende do que acontece no topo, como indica a pesquisa. Através da interpolação de Pareto foram calculados parâmetros que permitem estimar a renda em pontos de distribuição. A renda média anual dos 5% mais ricos foi de quase R$200 mil; entre o 1% foi de cerca de R$550 mil; e no 0.1% mais rico de mais de R$2.370 mil.

No período pesquisado, cerca de 25 milhões de declarações IRPF anuais foram observadas. Os dados tributários oferecem algumas limitações, não sendo possível calcular, a partir de suas informações, a renda per capita dos mais ricos, por exemplo. O levantamento também pode estar levemente subestimado por conta da elisão fiscal e das interpolações de Pareto usadas, que podem menosprezar a concentração de renda no topo extremo da distribuição. Entretanto, o professor Medeiros diz que o objetivo da pesquisa não era discutir o nível exato da desigualdade, mas oferecer um quadro geral. “A principal lacuna desse trabalho é não ter encontrado a natureza causal para a desigualdade estar tão alta”.

Crescimento de renda

Entre 2006 e 2012, os pesquisadores notaram que os 50% mais pobres da população apropriaram-se de 13% do crescimento da renda do país, enquanto os 5% mais ricos ficaram com 51% e o 1% com 30%. Os ricos apropriam-se da maior parte do crescimento. Medeiros afirma que, ao dizer que o Brasil tem que crescer, depreende-se que o rico ficará com 30% desse crescimento. “A discussão deve ser qualificada, o crescimento deve ser para pobre”.

Marcelo Medeiros e os parceiros Pedro Ferreira de Souza e Fábio Avila de Castro agora se dedicam a fazer uma medição mais ampla da desigualdade de renda no Brasil, considerando também o século passado. A medição pode ser feita a partir de 1970 e eles já estudam alguns resultados iniciais, como de que a maior queda observada da desigualdade brasileira foi no pós-guerra, atingindo o maior índice na véspera da ditadura. Depois de 1950, Medeiros acredita que a evolução da desigualdade no Brasil oscilou em uma banda limitada. “Baixa desigualdade não quer dizer necessariamente algo positivo, devem ser considerados os fatores que levaram a ela. Na Europa, durante o pós-guerra, por exemplo, a desigualdade diminuiu porque as fábricas foram destruídas”, ponderou.

Autora: Letícia Paiva

Data do Conteúdo: 
quarta-feira, 10 Junho, 2015

Departamento:

Sugira uma notícia