Diferença de escolaridade entre cônjuges é determinante para gastos com produção doméstica

por Rafael Benaque

A produção doméstica leva consigo uma boa fatia do orçamento familiar brasileiro. Mas a forma como esse dinheiro é empregado varia bastante de acordo com diversos fatores. A composição da família, a renda e a escolaridade dos cônjuges, por exemplo, são elementos que alteram substancialmente o gasto com esse campo. Dependendo de como se combinam essas características, haverá diferenças de como serão realizados esses serviços; se será dada preferência a contratação de uma empregada ou a compra de eletrodomésticos. Esse foi o tema do seminário apresentado recentemente por Ana Claudia Polato e Fava na FEA.

É evidente que a composição da família será muito importante para determinar como será gasto o dinheiro com a produção doméstica. Segundo a pesquisadora, a presença de uma criança pequena (de 0 a 3 anos) acaba levando os pais a contratarem uma empregada que possa fazer também o papel de babá em detrimento da compra de eletrodomésticos. “Claro que esses aparelhos ajudam. Mas máquina de lavar, infelizmente, ainda não toma conta de criança”, brinca.

Nesse ponto, o sexo da criança não importa. Porém, quando se trata de um adolescente (entre 13 e 16), já há uma diferenciação. Muitas vezes, quando se trata de uma menina, a demanda por ambos os bens, ou seja, por empregadas e eletrodomésticos, cai. Isso mostra um pouco do machismo presente na cultura brasileira porque apenas as filhas são educadas para ajudarem em casa.

A renda também tem seu papel nesse processo. É óbvio que, em uma família mais rica, os gastos serão sempre maiores do que em uma família mais carente. Segundo Ana, ao contrário do que ocorre nos países desenvolvidos, o serviço das empregadas domésticas é muito utilizado no Brasil. Isso ocorre porque há um grande contingente de mão-de-obra com baixa qualificação e barata. “As pessoas mais pobres investem menos em capital humano ou o fazem em capital humano para o setor doméstico, então ocorre essa perpetuação das pessoas de baixa renda trabalhando nesse setor”, afirma a pesquisadora.

Um dos pontos que mais chama a atenção, no entanto, é a influência da diferença de escolaridade entre os cônjuges nos gastos com a produção doméstica. Quando o marido possui mais tempo de estudo que a esposa, esta acaba se especializando no trabalho doméstico e aquele, por possuir uma vantagem comparativa, se especializa no mercado de trabalho. Essa é a idéia das esferas separadas do professor Robert Pollack, isto é, essa diferença caba melhorando o desempenho produtivo da família.

Nesse caso, gasta-se mais com produção doméstica, pois a mulher busca adquirir bens que economizem seu tempo e facilitem seu trabalho. Apesar de esse aumento ser notado em todos os tipos de bens, há uma preferência pelos eletrodomésticos. “O homem trabalha fora e presenteia a mulher com um microondas”, ri Ana.

Porém, quando a mulher é quem possui um grau de escolaridade maior, o efeito é contra-intuitivo. Ao contrário do que se pensa, uma especialização da esposa no mercado de trabalho não leva a um aumento na demanda por empregadas domésticas. Na verdade, quando isso ocorre, há uma redução nos gastos tanto com os eletrônicos quanto com os serviços de uma empregada.

Esse fenômeno também evidencia o caráter machista da sociedade brasileira. Mesmo nos casos em que o homem renderia mais em casa do que fora, este geralmente não realiza tais tarefas. Assim, quando a mulher está inserida no mercado de trabalho, há um aumento do consumo de serviços extra-domicílio, como restaurantes e lavanderias.
 

Data do Conteúdo: 
quinta-feira, 25 Setembro, 2008

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