Semana de Atuária discute o papel da profissão fazendo relação com o cenário brasileiro

Autora: Beatriz Arruda

Atuária

Com o intuito de aproximar a atuária à realidade brasileira e proporcionar um debate sobre essa área de atuação, foi organizada, entre os dias 9 e 11 de maio, a Semana de Atuária da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP. Ao longo da programação, foi apresentado um panorama da reforma da previdência e sua relação com a atuária, além do importante papel dessa área do conhecimento para a gestão pública.

Relacionando um assunto atual com o exercício do profissional de atuária, o professor Luís Eduardo Afonso apresentou um panorama da reforma da previdência no Brasil e comentou os erros e acertos do governo, além do papel da atuária nesse contexto, na palestra “Atuária no setor público”. Segundo ele, o problema da previdência não é, obrigatoriamente, o déficit, mas o quanto se gasta com o sistema previdenciário em relação ao PIB do país.

No Brasil, se gasta muito em previdência porque o tempo de recebimento do benefício é grande - as pessoas se aposentam cedo - e a taxa de reposição, medida do valor da aposentadoria em relação à renda do trabalhador antes de se aposentar, é alta. Além disso, o Brasil é o país que mais gasta com pensões por morte. “O sistema tem um problema claro de desenho, ou seja, o conjunto de regras e de parâmetros que nós escolhemos é inconsistente e incompatível com as características de geração de renda e de riqueza da economia do país”.

Segundo Luis Eduardo, o governo errou ao pensar que existia um consenso favorável à reforma da previdência por parte da sociedade e erra ao não disponibilizar todas as informações referentes à reforma, preferindo agir de forma mais silenciosa. “A reforma perdeu força. Muito em breve toda essa discussão precisará ser feita, com todo o custo político de se repensar uma mudança outra vez”, afirma.

O papel do atuário é importante, justamente, para se projetar o futuro e analisar como a previdência estará daqui alguns anos. Para isso, é importante que o atuário entenda as características demográficas da população e como a demografia vai evoluir ao longo dos anos, levando em consideração o crescimento no número de idosos, além de também compreender as características do mercado de trabalho e as regras da previdência. “Os atuários precisam entender de demografia para entender como as projeções demográficas são feitas e o impacto dessa mudança na estrutura demográfica e populacional do país”.

De acordo com o palestrante, a sociedade tem o direito de saber qual é o peso das escolhas. Em políticas previdenciárias, muitas vezes, as escolhas feitas hoje, não vão ter impactos imediatos, mas em 30 ou 40 anos. “Me causa até certa estranheza a ausência de atuários em órgãos do governo para fazer essa previsão que é tão relevante para a sociedade, porque é o profissional mais qualificado para fazer isso.” No entanto, também ressaltou a falta de participação de atuários e do Instituto Brasileiro de Atuários (IBA) no debate sobre a reforma da previdência.

O olhar longo do atuário

Ressaltando, também, a questão do envelhecimento da população e as decorrências disto na sociedade, o professor Luiz Jurandir Simões acredita que é função do atuário olhar o que não aconteceu e prever o que pode acontecer, encontrando a melhor maneira de gerenciar a situação. Como a sociedade se baseia em trocas, para ele, o trade off entre o presente e o futuro está cada vez mais importante: “Se você não pensa no futuro hoje, um dia ele vira presente e paga-se o preço de não ter pensado nisso antes”. O exemplo dado por Simões é a reforma da previdência, que necessita de uma aprovação hoje para que no futuro não se sofra com cortes e déficits. No entanto, afirma que a sociedade tem dificuldade para entender essa troca, e é por isso que existe tanta resistência.

De acordo com Simões, o atual dilema do atuário é que ele vai contra ao que a maioria pensa. Ao invés de se preocupar com o curto prazo, o profissional de atuária tem como compromisso olhar o longo. Sendo assim, enfrenta o problema de lidar com um ambiente em que o futuro não está sendo planejado. O desafio desses profissionais é alterar esse cenário: “O atuário precisa tentar mudar essa lógica, tentando provocar essa mudança e instigar a atitude”.

Data do Conteúdo: 
sexta-feira, 19 Maio, 2017

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