Mulheres falam de suas escolhas e carreiras durante simpósio do Genera

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PainelistasO feminismo marcou o tom do painel “Maternidade, Família e Carreira”, realizado no último dia 18 de maio, na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP (FEAUSP), dentro da programação do I Simpósio “Mulheres: Escolhas e Carreira”, promovido pelo Genera (Núcleo FEA de Pesquisa em Gênero e Raça). Durante cinco dias, mulheres em diferentes fases da carreira e de diferentes setores – academia, consultoria, mercado financeiro, cultura, empreendedorismo e negócios sociais – mostraram suas trajetórias pessoais e profissionais, paradigmas e as barreiras enfrentadas devido ao preconceito e à diversidade de gênero.

Com depoimentos que emocionaram a plateia, as quatro painelistas Amara Moíra (doutoranda da Unicamp), Brisa Flow (rapper), Rachel Baumel (supervisora na Phillip Morris e fundadora do blog “Elas Também”) e Danielle Botaro (sócia da Impulso Beta) contaram como lidaram com a discriminação durante a sua vida, em que momento decidiram assumir sua orientação sexual, como conciliam a vida pessoal com o trabalho, e de que forma vêm atuando para combater a desigualdade de gêneros. 

Casada com uma mulher e mãe de uma menina, Danielle Botaro é sócia de uma empresa de soluções de educação em prol do avanço profissional feminino e da igualdade de gênero no mercado de trabalho, a Impulso Beta. Carioca e há quatro meses morando em São Paulo, a empresária trouxe para o simpósio um dado impressionante: a mulher brasileira vai levar 106 anos para ganhar o mesmo salário que os homens. “Até o ano passado, a previsão era de 80 anos, mas foi ajustado para 106 anos”. Segundo ela, a mulher atualmente ganha em média 30% a menos que o sexo oposto.

Danielle Botaro reconhece que as mulheres estão cada vez mais preparadas para o mercado de trabalho, com nível superior e pós-graduação, e qualificadas para ocupar postos chave em grandes empresas, mas na prática isso não acontece. Enquanto elas representam 52% dos formados no ensino superior, apenas 4% dos cargos de presidentes das 250 maiores empresas no país são ocupados por mulheres. “Então você pergunta: onde ficaram essas mulheres que não estão chegando lá?”. 

Em suas consultorias a futuras empreendedoras, Danielle Botaro também percebe que muitas mulheres pensam “pequeno”, não são arrojadas na hora de abrir um negócio. Esse comportamento, em sua opinião, é moldado desde cedo, quando as meninas são criadas em modelos de famílias tradicionais para terem características tidas como femininas, onde não cabem conceitos como “liderança” e “negociação”. Só os homens são treinados para essas situações.  

Esse tipo de comportamento é reforçado no dia a dia, nas atitudes e conversas, em todo o tipo de ambiente. Danielle Botaro deu como exemplo de discriminação as empresas que perguntam para a mulher numa entrevista de emprego se elas pretendem ter filhos. “Esse tipo de pergunta não é feita para os homens, porque o papel de cuidar dos filhos é sempre da esposa”.

Segundo ela, só começaremos a reverter esse quadro, quando homens e mulheres pararem de reproduzir piadas e frases feitas sobre o papel submisso da mulher.  “Quanto mais mulheres pararem de repetir frases feitas, mais fácil vamos atingir um caminho de igualdade e igualdade de oportunidades”, afirmou a empresária. Outra sugestão é trazer o homem para a conversa. “Se os homens não se mobilizarem, não forem agentes de transformação, a gente não vai conseguir mudar esse quadro”.

“Elas Também”

Economista formada pela FEA, Rachel Baumel criou em 2013 o blog “Elas Também” (dedicado ao compartilhamento de histórias de mulheres inspiradoras), após fazer um curso de liderança e se indignar com o fato de só citarem homens como exemplos de sucesso profissional. Durante o simpósio do Genera, a economista disse que o feminismo entrou em sua vida há quatro anos, quando teve que escolher um tema para a monografia. “Nada me interessava. Mas, naquele ano, o Banco Mundial divulgou um relatório com um recorte sobre igualdade de gênero e desenvolvimento. Então, decidi pesquisar sobre o assunto no Brasil”.

Durante a faculdade, Rachel contou que não conseguia assumir sua sexualidade diante dos colegas, por medo que isso pudesse prejudicar futuramente sua carreira. No dia da formatura, no entanto, foi o dia da virada: acabou dançando com a namorada na frente de todos. Mudou-se para Curitiba e trabalha atualmente na Philip Morris Brasil, uma empresa com a qual se identificou por ter um programa estruturado contra a desigualdade de gênero.

No local de trabalho, Rachel consegue fazer o que ela chama de “trabalho de formiguinha”: “Comecei a pensar: tenho uma ideologia tão diferente dessas pessoas, como posso colocá-la em prática frente a essas pessoas que não estão abertas a ouvir outros tipos de opiniões?”. Rachel Baumel acredita que a melhor forma de acabar com o preconceito é “desconstruindo o pensamento”. “Só cheguei nesse ponto desconstruindo o modelo mental que ao longo da vida tinha construído. Essa desconstrução envolve a quebra de estereótipos”.

Rapper

Brisa FlowA rapper Brisa Flow, autora da música “As de Cem”, que fala do empoderamento feminino, luta até hoje para ter respeito no meio profissional.  Filha de chilenos, a mineira Brisa De La Cordillera, como também é conhecida, se descobriu bissexual aos 13 anos. Durante a adolescência, enfrentou preconceitos na escola e em casa. Mas foi no mundo do rap que descobriu o machismo: “A mulher do rap ou ela é mulher de alguém ou ela é a puta de alguém, que troca serviços. Eu ouvia: eu aceito que você grave um CD, mas tem que manter relações comigo”.

Sua trajetória foi cheia de obstáculos até conseguir chegar à carreira solo. “Em 2011, me empoderei de querer fazer carreira sozinha. Resolvi optar por relações de amor livre. Lá em Belo Horizonte, começou um movimento grande de mulheres no rap, só que eu não aguentei a pressão de não ter mais lugares para tocar, de ter as portas fechadas. Eu era plural, queria ser tudo. Acabei vindo para São Paulo. Me joguei mesmo. Conheci meu companheiro e engravidei depois de quatro meses”.

Depois, veio a dificuldade financeira para cuidar do filho. Brisa não conseguia financiamento para o seu disco. “Homem só financia em troca de favores, e eu não queria fazer isso. Aí eu pensei: tenho que dar um jeito”. Foi quando surgiu a inspiração para escrever a música “As de Cem”, lançada em outubro de 2015: “Não calamos nossa voz. Nós queremos o mundo pra nós. Tamo pelas ruas. Nos palcos, nas pistas. Fora do padrão, capa de revista. Nas facul, nas vistas. Cargo de chefia. De salto de boot. Sozinha ou com cria”.

Brisa Flow também enfrenta preconceito porque é mãe e faz shows à noite, enquanto o companheiro cuida do filho. Segundo ela, essa inversão de papéis é mal vista pela sociedade. Hoje, a rapper defende a independência financeira da mulher como uma solução para se libertar da submissão e do preconceito. “Eu vi como a gente era refém dessa situação financeira. O capitalismo aprisiona a mulher. Ela ganha menos, e fica mais difícil ainda quando se torna mãe. Não acredito que o dinheiro seja solução das coisas, mas só vai solucionar pra nós quando ganharmos igual a eles (os homens)”.

Transexual

Aos 31 anos, a transexual Amara Moíra se considera hoje uma pessoa privilegiada porque está fazendo doutorado na Unicamp. Ela é a primeira pessoa a fazer doutorado na família. Com o dinheiro da bolsa de estudos, conseguiu ter uma certa independência financeira, o que lhe deu coragem para enfrentar a família e assumir sua verdadeira sexualidade. “Se meus pais falassem que eu estaria expulso de casa porque não me aceitam, eu sairia na mesma hora. Na verdade, eu me antecipei e falei: eu vou sair de casa”.

Quando se está numa universidade pública como a Unicamp, Amara Moíra afirma que o respeito se dá de uma forma mais fácil. “O que acontece na Unicamp? A gente tem 30 mil alunos e cerca de 20 pessoas trans. Se não me engano nenhuma delas entrou trans na universidade. Todas ‘transicionaram’ depois. Porque lá você encontra acolhida, pode sair dos olhos dos pais e começar a construir uma nova identidade. O fato de você estar lá te dá ferramentas para negociar com a sua família a sua aceitação. Família é um elemento essencial na vida de pessoas trans, para você não se ver relegada à marginalidade, à exclusão social completa”. 

O I Simpósio Genera: “Mulheres: Escolhas e Carreira” realizou, ainda, painéis sobre “Academia e Política”, “Consultoria e Auditoria”, “Mercado Financeiro” e “Empreendedorismo e Negócios Sociais”. 

Autora: Cacilda Luna

Data do Conteúdo: 
quarta-feira, 25 Maio, 2016

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