Doutorado - Abrindo caminhos: a construção das identidades docentes de mulheres pelas trilhas, pontes e muros da pós-graduação em Contabilidade

Tipo de evento: 
Defesa
Data e hora: 
03/05/2019 - 09:30 até 12:30

 

Camilla Soueneta Nascimento Nganga  

Doutorado - Abrindo caminhos: a construção das identidades docentes de mulheres pelas trilhas, pontes e muros da pós-graduação em Contabilidade  

Orientadora: Profª Drª Silvia Pereira de Castro Casa Nova  

Comissão: Profs. Drs. Lucas Ayres Barreira de Campos Barros, Simone Bernardes Voese, Sandra Maria Cerqueira da Silva e Claudia Pereira Vianna

Local: Sala 217, FEA-5

Resumo*

O contexto da Educação Contábil no Brasil é permeado pela expansão dos cursos de graduação e de pós-graduação, e também pelo aumento do número de pessoas matriculadas e concluintes na graduação, sendo este aumento notadamente atribuído às mulheres. Desde o ano de 2005, o percentual de mulheres matriculadas na graduação em Ciências Contábeis vem superando os homens, no entanto, esse percentual diminui na pós-graduação e, consequentemente, no ingresso na carreira docente na graduação e, de forma mais acentuada, na docência na pós-graduação (Nganga, Gouveia, & Casa Nova, 2018). Além disso, destacamos que a falta de ações voltadas para a qualificação pedagógica, bem como o pouco contato com pesquisas durante a graduação em Ciências Contábeis reforça a pós-graduação stricto sensu enquanto importante lócus de desenvolvimento profissional para docentes da área. Nesta pesquisa, buscamos compreender a construção das identidades docentes de mulheres em programas de pós-graduação da área de Ciências Contábeis, que são caracterizados pela baixa oferta de ações relacionadas à formação para o ensino, pelo foco em publicações e por serem ambientes masculinizados. Lester (2008) destaca que poucas pesquisas abordam questões relacionadas às identidades de mulheres no corpo docente, sendo importante descrever e considerar possíveis conflitos e a negociação da própria identidade que ocorrem em uma cultura acadêmica predominantemente masculina. Diante deste cenário, entendemos como relevante analisar as experiências das mulheres que vêm persistindo diante do ambiente masculinizado da Contabilidade, em um cenário que as excluem na medida em que elas avançam em sua trajetória profissional acadêmica. O estudo teve por objetivo analisar o impacto dos processos de formação e de socialização vivenciados por mulheres em programas de pós-graduação em Ciências Contábeis na construção de suas identidades profissionais docentes. A presente tese contribui com a discussão sobre identidades docentes de mulheres na área de Contabilidade, a partir de uma perspectiva de gênero (Scott, 1986; 1988), tendo por vertente epistemológica o construcionismo social e como posicionamento teórico o pós-estruturalismo feminista, utilizando uma abordagem qualitativa. Foram entrevistadas 13 doutorandas da área de Ciências Contábeis no Brasil, vinculadas a diferentes programas. A análise de evidências foi construída com base na análise por template (King, 2004), sendo que também foram analisadas de modo inicial e como contraposição as entrevistas de cinco doutorandas vinculadas à dois programas de doutorado em Contabilidade dos Estados Unidos. Como resultados da pesquisa, tem-se que o desenvolvimento das identidades profissionais docentes das mulheres entrevistadas foi marcado pelo percurso realizado na pós-graduação em Contabilidade, por meio de alguns aspectos principais, porém não exclusivos: a socialização profissional em um ambiente masculinizado, exigente e estressante; a formação docente, englobando ensino e pesquisa, mediante a disponibilidade de exemplos, negativos e positivos, sobre a atuação docente e a pressão intensa por publicações; para as que são mães, as experiências dentro e fora dos programas demonstrou uma difícil relação entre maternidade e academia; e, por fim, ao refletirem sobre a influência do doutorado em suas trajetórias docentes, essas profissionais evocam resiliência em persistir e a proposição de uma atuação docente mais humanizada e empática, em que o doutorado contribui para a construção de um conhecimento contábil crítico e atualizado. Adicionalmente, as reflexões iniciais realizadas sobre as experiências das mulheres inseridas nos programas estadunidenses permitem considerar fatores que se aproximam e que se distanciam do cenário brasileiro. Parece haver um entendimento do Doutorado como exercício profissional na academia, cenário diferente do Brasil, em que o curso é tido primariamente como uma etapa de formação e estudos. Os processos de mentoria estão presentes na trajetória das entrevistadas naquele contexto, sendo que, no contexto brasileiro, não houve relatos indicando ações relacionadas à mentoria. Sobre as aproximações, a formação para a pesquisa foi consideravelmente marcada por abordagens quantitativas e positivistas e a formação para o ensino restrita às atividades de Teaching Assistants. Além disso, as reflexões tecidas evocam aspectos relacionados ao work-life balance, bem como à maternidade e o ambiente acadêmico. Nesse contexto, há indicação da necessidade de gerenciar impressões (Lester, 2011), relacionada ao fato de que a imagem materna se contradiz à imagem do “trabalhador ideal”, o que pode impactar na constituição identitária acadêmica. Por fim, destaca-se a resiliência. Diante de todos os desafios encontrados em seus percursos, as mulheres entrevistadas se propõem ao que se pode chamar de subversão do sistema: não só seguem convictas de seus objetivos como professoras, como também vão além, se comprometendo com o desenvolvimento de relações na academia que sejam humanizadas e que rompam com a falta de empatia e a indiferença evocadas em suas experiências. Como recomendações práticas, sugere-se a inserção de processos de mentoria para mulheres no âmbito da pós-graduação brasileira; a revisão da legislação das universidades para a maternidade; ações que promovam o balanço vida-trabalho; criação de espaços de discussões sobre diversidade; definições de ações sistematizadas de formação para o ensino e para a pesquisa; e propostas para a melhoria da saúde mental de pós-graduandos e de pós-graduandas. A título exemplificativo, pesquisas futuras poderão abordar: (1) as identidades docentes de professoras da pós-graduação em Contabilidade consideradas role models na área; e (2) a formação para o ensino e para a pesquisa a partir da perspectiva das coordenações dos cursos de mestrado e doutorado, bem como das pessoas da área vinculadas à agência reguladora da pós-graduação (CAPES); (3) a experiência de outros grupos minorizados e o impacto que o doutorado tenha no processo de construção da identidade profissional docente, com apoio da Teoria Interseccional.

* Resumo Fornecido pelo Autor

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