Mestrado - Negociando com a passabilidade: a relação entre o gênero e a carreira da pessoa transgênera

Tipo de evento: 
Defesa
Data e hora: 
24/10/2019 - 10:00 até 13:00

 

Maria Carolina Baggio Zanetti Nucci de Oliveira     

Mestrado - Negociando com a passabilidade: a relação entre o gênero e a carreira da pessoa transgênera

Orientador: Profª. Drª. Tania Casado

Comissão: Profs. Drs. Wilson Aparecido Costa de Amorim, Pedro Jaime de Coêlho Junior e Eloisio Moulin de Souza

Local: Sala 217, FEA-5

Resumo*

Nesta dissertação buscamos compreender como as relações de gênero impactam a carreira. Para investigar tal questão, nos perguntamos: como as pessoas transgêneras negociam com as relações de gênero em suas carreiras? No Brasil e no mundo, pessoas transgêneras encontram resistências por desafiarem a cisnormatividade, o conjunto de discursos que postula que o gênero de uma pessoa é determinado por seu corpo-sexo, produzindo as continuidades vagina-fêmea-mulher-feminilidade e pênis-macho-homem-masculinidade. Essas resistências também acontecem no âmbito do trabalho, traduzindo-se em dificuldades de ingressar e permanecer no mercado de trabalho formal. Buscando enxergar o processo de negociação, olhamos para a carreira, ou seja, essas experiências de trabalho no tempo e no espaço social. Assim, lançamos mão de narrativas de vida, pois é um método que permite à pessoa recontar suas vivências ao longo do tempo, contextualizando-as na história. Para produzir essas narrativas, optamos pelas histórias orais, obtidas em entrevistas em profundidade com onze pessoas transgêneras escolhidas propositalmente. Complementamos as entrevistas com observações de campo. A análise e a exibição das narrativas seguiram dois métodos diferentes: primeiramente, exibimos um resumo de cada uma das histórias de vida, complementado com uma linha do tempo. Depois, elaboramos a análise entre as narrativas a partir dos métodos de codificação teórica e comparação constante da grounded theory. Desta última, derivamos algumas conclusões. As pessoas transgêneras podem estar em dois estados possíveis perante o mercado de trabalho: “nem tubarão nem sereia” (quando a pessoa não é reconhecida por outras como um homem cisgênero ou uma mulher cisgênera) ou passável (quando é reconhecida por outras pessoas como uma pessoa cisgênera do gênero com que se identifica). Quando está no estado em que não é passável, a pessoa sofre diversas violências e enfrenta inúmeras dificuldades para ingressar e concluir os ensinos básico e superior, para arrumar trabalho e para crescer nas organizações. Contudo, também podem receber apoios na família, em grupos e coletivos e até mesmo no trabalho, que mitigam essas violências e dificuldades. Com esse cenário em vista, as pessoas participantes adotam uma de duas estratégias: ou elas “fazem a linha” - quando se expressam de forma congruente com o gênero que lhe foi designado ao nascer -, ou jogam a real sobre sua transgeneridade. Em geral, “fazer a linha” permite que as pessoas tenham carreiras menos descontinuadas. Jogar a real, por outro lado, é um movimento arriscado, exceto quando feito no mercado da diversidade - o nome que demos para um conjunto de organizações composto por (a) organizações de e para pessoas LGBT+, (b) empresas que trabalham com a questão da diversidade e inclusão, e (c) participação em iniciativas internas ou externas de empresas. Passar-se é, como vimos, um estado, mas também uma estratégia. Ao passar, as pessoas participantes deixam de sofrer violências transfóbicas, mas continuam suscetíveis ao sexismo. No entanto, passar-se não é simples, e envolve também questões de raça e classe social. Por fim, trazemos algumas recomendações das pessoas participantes para outras pessoas transgêneras seguindo suas carreiras, e algumas recomendações para pessoas cisgêneras leitoras.

*Resumo fornecido pelo autor

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